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Santiago a Mil, e o cine rebelado de Sebastián Lelio

Luiz Carlos Merten

14 Janeiro 2019 | 10h41

SANTIAGO – Fui ver ontem no Santiago a Mil o espetáculo colombiano Lábio de Liebre, de um grupo chamado Petra. O texto e a direção são de Fabio Rubiano. Um ex-dirigente que pregava a justiça social e agora vive confinado, ten do de usar tornozeleira eletrônica por seus crimes, recebe a visita de cinco pessoas. O espetáculo dura apenas 75 minutos e com humor (negro?) e boa dose de crueldade revelam-se os fios da tragédia. São todos mortos que vêm atormentar o protagonista, Castello, cobrando vingança ou justiça. É o subtítulo, com interrogação – Venganza o justicia? Quatro integrantes de uma mesma família e uma jornalista. O garoto, que tinha lábio leporino – lábio de liebre, era talvez seu crime – teve a cabeça decepada para servir de bola num jogo de futebol. A garota, violentada pelo pai, encontra, ó paradoxo, um pouco de ternura no cruel Castello. A tragédia campesina da Latino América. Gostei de ver a montagem, que se passa num único cenário, o interior da casa do confinado, uma solução plástico-temporal muito interessante porque o clima lúgubre é realçado por uma teia escura que, lá pelas tantas, paira sobre tudo – como no Albert Camus de Gabriel Villela, Estado de Sítio. O que cobram os mortos vivos? Que Castello os nomeie e diga onde estão seus corpos, um procedimentro comum às ditaduras e demais regimes violentos – sumir com os cadáveres de seus inimigos. Gostei de ver, já disse, e hoje tem mais – o Muito Ruído por Nada peruano, e amanhã Democracia, de Felipe Hirsch -, mas fiquei pensando quais são os critérios de seleção para um grande evento de artes cênicas como esse. Gabriel Villela poderia e até deveria estar aqui, com Boca de Ouro e Hoje É dia de Rock, e idem Navalha na Carene, e mesmo não sendo um grande admirador do Grande Sertão de Bia Lessa imagino que faria sensação – quem sabe já veio, Bia, no ano passado? Saí de Las Condes, do Teatro Municipal que abrigava Lábio de Liebre, e corri para o Centro Cultural La Moneda, no Centro, onde a Cineteca Nacional apresenta, a par de certas manifestações em vídeo do Santiago a Mil, umas retrospectiva de Sebastián Lelio, sob o título Un Cine Rebelado. Vi ontem o programa formado pelo curta Quatro e pelo longa El Año del Tigre, inspirado por eventos ocorridos durante o terremoto (e tsunami) que atingiu o Chile em 2010. Caem os muros e um homem consegue fugir da cadeia. Encontra um mundo devastado. Sua casa desapareceu, a mulher, idem. No caminho, ele encontra, numa jaula, o tigre, que parece morto. Liberta-o, e o tigre volta nessa história, quando o fugitivo se depara com um velho armado, com um discurso bíblico apocalíptico. Gostarias muito de (re)ver Desobediência para comparar com o discurso inicial do rabino, que me parece oferecer um contraponto. O rabino falava do direito divino à desobediência, o crente primitivo profere o que imagina sejam as palavras de um Deus punitivo que lançou o tsunami contra seus filhos. O tigre é obviamente a natureza selvagem do homem. No final, com cantos religiosos de fundo, o homem se rebela e volta para a cadeia – Robert Bresson, vestígios de Pickpocket. Gostaria de ver o outro duplo de Sebastián Lelio nesta segunda, o curta Música de Cámara e o longa Sagrada Família, mas vai bater com o Shakespeare peruano do Santiago a Mil. Se já não tivesse agendado a volta, e emendasse com a Mostra Aurora em Tiradentes, gostaria de ficar mais uns dias, porque a programação da Cineteca vai ter direito a debate com Sebastián Lelio e com Mariano Llinás, autor de um filme que está fazendo sensação no circuito internacional de arte. La Flor – é o título -, está no Santiago a Mil sob a rubrica Ciclo Cine Lab, que privilegia o cinema experimental, transmidiático.