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Sanjinés e a coragem do povo

Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2017 | 13h48

Espero ver hoje à tarde o Churchill, que está numa única sessão do Kinoplex Itaim, à tarde. Outro filme que ainda não consegui ver é o coreano sul-coreano A Vilã, do qual Rubens Ewald e Hamilton Rosa me falaram maravilhas. As sessões de A Vilã são de cortar os pulsos. A única que serviria para mim seria às 22h15 no Metrô Santa Cruz – pelo horário, não o local -, mas foi cancelada neste domingo. Se vir mesmo o Churchill, como espero, perco o Jorge Sanjinés no Centro Cultural São Paulo, que justamente neste domingo apresenta um programa sensacional. Às 15 h, Coragem do Povo, e às 17 h, O Inimigo Principal. Mea culpa – houve ontem à tarde, na retrospectiva de Sanjinés, uma conferêncvia sobre os 50 anos do novo cine latino-americano e o cinema ‘junto al pueblo’ do autor boliviano, com a participação de duas professoras doutoras, uma da Universidade de Buenos Aires e outra da USP. Foi na mesma hora de uma masterclass sobre os irmãos Maysles, na programação dedicada à dupla de documentaristas pelo Belas Artes. Teria sido importante prestigiar as duas, mas como? Sanjinés deu voz aos índios e revelou a Bolívia para os próprios bolivianos com filmes como Ukamau e Yawar Malku/Sangre de Condor, a que assistimos, Doris e eu, por volta de 1970, viajando pela América Latina. Apesar das ditaduras militares, esses filmes, e outros, circulavam nos circuitos paralelos do países do Cone Sur – cinematecas, sindicatos, etc. Ukamau/Asi Es é sobre a vingança de um marido. A mulher aymará é estuprada e morta e ele se vinga num duelo com o estuprador. Sangre de Condor é sobre os Peace Corps, grupos que o governo dos EUA enviava à América Latina nos anos 1960. Eream jovens idealistas, mas, infiltrados, havia agentes da CIA que, no Brasil, monitoravam as Ligas Camponesas e, na Bolívia, esterilizavam as mulheres indígenas. No filme de Sanjinés, Ignazio descobre e mobiliza a comunidade. O fime repercutiu tanto que os Peace Corps foram expulsos da Bolívia. Os programas deste domingo não são menos ‘militantes. El Coraje del Pueblo é sobre uma mobilização de camponeses para apoiar a guerrilha – o fato foi em 1967, o filme é de 1971 – e a repressão violenta do Exército. O Inimigo Principal é sobre grupo de guerrilheiros que julga e executa proprietário e seu capataz por crimes contra as populações indígenas. De novo, o Exército intervém em defesa dos poderosos. Se os temas são fortes, a forma não é menos. Os filmes de Sanjinés resgatam o quéchua (ou quíchua, quechua) como língua e forjam uma identidade nacional nascida da solidariedade dos movimentos populares. Uma utopia, talvez, mas necessária – hoje em dia, então, nem se fala. Colocou o cinema da Bolívia no mapa.