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Sangue de condor

Luiz Carlos Merten

17 de julho de 2013 | 13h38

Luigi Pirandello morreu em dezembro de 1936, deixando inacabada sua obra-prima, Os Gigantes da Montanha. Lembrei aqui no outro dia, no post sobre a bela montagem de Gabriel Villela com o Grupo Galpão – teatro de rua da melhor qualidade -, sua última frase, ‘Eu tenho medo”. Uma coisa pode não ter nada a ver com a outra, mas quando Pirandello morreu Jorge Sanjinés talvez já engatinhasse. Nasceu em junho daquele mesmo ano. Sanjinés é uma das figuras míticas do cinema latino-americano. Hoje, no contexto do Festival Latino, o Cineclube do Memorial apresenta, às 8 da noite, Yawar Malku, Sangue de Condor, que ele fez em 1969. Sanjinés estudou cinema no Chile e, jovem ainda, aos 28 anos, fez o curta Revolución, que ganhou o Prêmio Joris Ivens no Festival de Leipzig. De formação marxista, ele virou a referência do cinema na Bolívia e foi convidado para presidir o nascente Instituto de Cinema Boliviano. Não durou muito. Em 1966, com Ukamau, contou a história de um índio que se vinga do mestiço que estuprou sua mulher. Ukamau foi proibido, o Instituto fechado e a ditadura de Barrientos fez de Sanjinés um inimigo público. Sanjinés se exilou no Peru, fundou sua empresa produtora (uma cooperativa) chamada Ukamau (É Assim) e provocou um escândalo ainda maior com Yawar Malku, Fiel a uma agenda ao mesmo tempo estética e política, o filme mostra a esterilização de mulheres índias pelos Progress Corps, integrados aos American Peace Corps, que os EUA enviavam para países do Terceiro Mundo oficialmente para ajudar populaçõ9es carentes. A forma do filme foi considerada difícil, mas ele é muito rigoroso em suas influências europeias (Straub, Straub, Straub). E o impacto foi tão grande que os Progress Corps foram expulsos da Bolívia. Radicalizando ainda mais sua estética política, Sanjinés fez, em 1971, El Coraje del Pueblo, sobre os massacres de mineiros bolivianos em 1942 e 67. Dois anos depois, surgiu o que, para mim, é sua obra-prima, El Inimigo Principal. Um camponês protesta contra o grande proprietário que roubou seu touro e é morto. Sua cabeça é decepada. A mulher pega a cabeça e a leva ao pueblo. Incita os campesinos. Guerrilheiros se aproveitam da situação e ensinam ao povo quem é o inimigo principal – o latifúndio é só um braço do imperialismo, contra quem Sanjinés já vinha investindo desde Sangue de Condor. Vi todos esses filmes viajando pela América Latina, no começo dos anos 1970, com minha ex, a Doris. Não podíamos ser mais ‘conga y poncho’. Chile, Peru e Bolívia eram nossa praia. Na Argentina, em pleno governo de Isabelita Perón, no intervalo das ditaduras, vimos uma plateia aplaudir Patagonia Rebelde, de Hector Olivera, que virou outro filme farol de minha vida. Os militares massacram um levante de mineiros e campesinos. Há uma festa de aniversário para o oficial Hector Alterio e ele toma consciência de que se apartou do seu povo quando os convidados gringos cantam  Parabéns em inglês (‘Cause he is a jolly good fellow…) Patagonia Rebelde começou a ser perseguido no governo de Perón, mas o próprio Juan Domingo o liberou, para ser proibido de novo por Isabelita e, depois, pela ditadura militar, só voltando na ter uma vida, no país, em 1984 ou 85. Pelo que escrevi anteriormente, vocês podem pensar que O Inimigo (de Sanjinés) é didático, simplista. Nada mais equivocado. E o filme, em preto e branco, é, até onde me lembro, de uma beleza de cortar o fôlego. Sanjinés! Gostaria muito de acreditar que meu post tenha deixado alguns leitores (cinéfilos) com vontade de ver Yawar Malku esta noite.

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