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Sam Mendes e o nascimento de um novo clássico de guerra, 1917

Luiz Carlos Merten

26 de novembro de 2019 | 09h49

Jessica Quinalha, da Universal, não me definiu embargo, mas de qualquer maneira fiz uma pesquisa para ver se havia críticas de 1917. Encontrei várias , que não li, mas sinalizaram que, se embargo houve, terminou ontem – todas as críticas eram de 12 horas atrás. Assisti ao filme de Sam Mendes numa cabine reservada, sem legendas, e na sequência entrevistei o duo de protagonistas, George McKay e Dean-Charles Chapman. Não tenho a menor vergonha de dizer que a experiência emocional foi intensa e até chorei. Mendes já havia filmado a guerra – em Soldado Anônimo -, usando a guerra de George Bush, o pai, para falar da guerra do filho, George W., no Iraque. O próprio tema do filme era a relação familiar, entre pais e filhos, como em Beleza Americana e Estrada da Perdição. Depois, Sam Mendes fez Foi Apenas Um Sonho, que era, para mim, seu melhor filme – até o atual. Arrebentou com os James Bonds, mas com 1917 ele realiza algo muito especial. Um novo clássico de guerra, a 1.ª. Dois soldados têm de atravessar a batalha – como Fabricio Del Dongo em A Cartuxa de Parma – paras entregar uma carta, abortando um combate decisivo. Um deles lança-se à missão porque sabe que estará salvando a vida do irmão, lá do outro lado. O outro o acompanha. Atravessam o inferno, conversam, enfrentam o perigo. E tudo filmado num único plano sequência. One long shot, duas horas. Não o interior de um museu, como no Alexander Sokurov, Arca Russa. Guerra! trincheiras, pântanos, florestas, campos floridos, balés de aviões e explosões. Como eles conseguem? Seja como for, conseguem. Numa cena, lá pelo meio, Schoffield/McKay recebe um tiro e a tela escurece, o que indica que há um primeiro one shot até ali e depois o filme recomeça, para terminar exatamente igual – à sombra de uma árvore, e mais não digo. Dois planos longos, sequenciais. Não exatamente pais e filhos, mas, dessa vez, filhos e mães. Stanley Kubrick queria fazer a obra-prima definitiva de todos os gêneros em que trabalhou. Fez uma obra-prima de guerra, também sobre a 1.ª, Glória Feita de Sangue, em 1957, ou 58. Mais de 60 anos depois, Sam Mendes fez outra obra-prima. Estou chapado – é filme de Oscar, com certeza. Dean-Charles quase morreu de rir ao telefone. Disse-lhe que devia ser o único, no planeta Terra, a não ter visto um capítulo sequer de Game of Thrones, mas que mesmo assim ia lhe fazer perguntas sobre a série mítica. Foram entrevistas muito interessantes, dois carinhas – jovens – ótimos. Amanhã, espero que dê certo, falo com o próprio Sam. 1917! Não fazia a menor ideias do filme que ia ver. Não sabia nem o título. Adoro quando a caixinha de surpresas do cinema abre-se para me maravilhar. E o mais curioso é que Adriana Del Ré, minha editora, me pediu um texto para fechar a página de TV. O que poderia ser? Olhei a programação e havia o Outubro, de Sergei M. Eisenstein, na TV paga, no Telecine Cult, e usei o filme como gancho para falar de um livro de João Lanari Bo que já está nas livrarias – Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos. Um estudo crítico sobre poder e ideologia, personalismo e propaganda, mapeando o cinema russo desde os vanguardistas como Eisenstein e Dziga-Vertov, no período de ouro, até autores contemporâneos como Andrei Tarkovski, passando pelo realismo socialista que marcou a longuíssima era de Josef Stálin. De novo, 1917. A Revolução Russa, a tomada do Palácio de Inverno, a exclusão do papel de Trotski/Leon Davidovich Bronstein no movimento que culminou com a tomada do poder pelos trabalhadores. Foi uma tarde bem movimentada, a minha, ontem.

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