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Sacos sem fundo

Luiz Carlos Merten

05 Janeiro 2015 | 09h30

Nos últimos dias tenho ido bastante ao Caixa Belas Artes. Fui ver As Duas Faces de Janeiro, do qual gostei, mas confesso que gostei mais ainda de dois filmes que revi – O Crítico e A Familia Bélier. Já que estamos em temporada de prêmios, pergunto-me se François Damiens e Karin Viard serão indicados para prêmios de interpretação na França e se Louane Emera vai concorrer ao César de jeune espoir pelo filme de Éric Lartigau. Existem coisas que me encantam em Lartigau – quando os pais vão ao médico e discutem a vida sexual diante da filha; o irmão que quase morre por um choque alérgico produzido pela borracha da camisinha; e a cena em que o diretor corta o som na apresentação do casal, para que o espectador compartilhe o mundo do silêncio dos pais da garota, que não podem ouvir. Lartigau fez um filme que fala de limites sem comiseração nem miserabilismo. Aleluia! O próprio pai contesta que ser surdo seja uma deficiência. Diz que é uma identidade. Muito interessante… Acho que as poltronas do Belas Artes melhoraram bastante – antes eu não me encaixava nelas -, mas anda me batendo nos nervos uma coisa que não sei se é lícito reclamar, de tal maneira está incorporada ao ato de ver  filmes. Mas o Belas Artes, afinal, não é o Cinemark, com seus blockbusters e um longo prólogo, que já cansei de ver, até nos lembra a importância cultural de sua permanência. Nas paredes, cartazes só mostram filmes considerados de arte. Mas eu cada vez me pergunto mais se as pessoas, mesmo no Belas Artes, vão ao cinema para ver filmes ou para comer pipoca. E são sacos sem fundo! Comem, comem e não acaba nunca. Fazem barulho comendo e revirando a pipoca no saco. Socorro! Em pleno silêncio da Família Bélier, o carinha do meu lado não terminava nunca aquele maldito saco. Elogiei no post anterior os críticos norte-americanos, que premiaram Godard. Vou elogiar os exibidores franceses do Quartier Latin, com todos aqueles deliciosos cinemas de arte-ensaio. Pipoca e refrigerante não entram. O prazer de ver um filme ouvindo só o som da tela! Isso está sendo perdido…                                                                                                               1