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Ruy Guerra e o cinema em reação. Ou: a reinvenção do cinema

Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2017 | 18h35

TIRADENTES – Sou godardiano. Amo John Wayne quando abre os braços para neles aninhar – em Rastros de Ódio, de John Ford – a sobrinha que procurava para matar. Amo John Wayne quando mata o facínora, mas se sacrifica para que James Stewart leve a fama e mereça a mocinha. John Ford – a grandeza dos derrotados. Amo John Wayne em A Primeira Vitória, de Otto Preminger, quando o oficial Rockwell Torrey é colhido no embate entre o homem e a instituição militar, vai parar no hospital todo rebentado, mas com a ética intacta, e com Patricia Neal fazendo a vigília, em sua cabeceira. Pois, apesar de todo este amor, nesta terça à tarde, 24, permiti-me amar mais ainda Ruy Guerra, como ‘o homem que matou John Wayne’. Acabo de assistir, na mostra Cinema em Reação, ao belo documentário de Diogo Oliveira e Bruno Laet. Para poder ver o filme, tive de sair no meio do debate Cinema em Reação, Cinema em Invenção – o tema desta Mostra. O debate estava bem interessante, e com uma participação exemplar de Eduardo Valente, colocando em perspectiva a falácia da internet, como nova tecnologia. Democratização dos meios de produção e exibição? Em termos, ou (muito) até certo ponto. Adorei. Fui ao filme, e foi ótimo. Estou amando essa reinvenção do documentário brasileiro, que se liberta das amarras do modelo de Eduardo Coutinho, bom para ele, mas até Coutinho andava em crise consigo mesmo nos últimos filmes. Pitanga, Divinas Divas e, agora, O Homem Que Matou John Wayne são geniais reinvenções. E Ruy me merece todo respeito, mesmo que não ande gostando muito dos filmes dele. Continuo preferindo os antigos – Os Cafajestes, Os Fuzis, Os Deuses e os Mortos, A Queda. O que é aquela coreografia da câmera e dos atores no interior do bordel em Os Deuses e os Mortos? É um filme que ando louco para rever. Como personagem, Ruy é magnífico. E a forma como ele matou John Wayne… Quem quiser, que acredite. O cinema, como Ruy explica, é 100% falso e, mesmo assim, somos capazes de acreditar nas imagens, mesmo conscientes de que são (sempre) manipuladas. O que a imagem mostra, também esconde. O que nos é dado a ver implica em coisas que nos são negadas. Gostei demais de O Homem Que Matou John Wayne. Dois belíssimos filmes – o outro, Baronesa – em apenas um dia e meio? E daqui a pouco tem mais Aurora. Tiradentes já está valendo a pena para mim. Mas quando não é assim?