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Ruth de Souza, tributo a uma mulher que abriu muitas portas

Luiz Carlos Merten

29 de julho de 2019 | 01h26

Na apresentação de seu filme no Cinesesc, Gabriel Martins dedicou a sessão de No Coração do Mundo a Ruth de Souza. A dois passos dele estava Grace Passô, atriz de No Coração, e ele falou dessas mulheres como ‘rainhas’. Ruth Pinto de Souza, que se tornou conhecida somente como Ruth de Souza, morreu ontem no Rio, aos 98 anos. Já deve estar sendo, ou será velada no Teatro Municipal carioca. Faz todo sentido. Ruth foi a primeira atriz negra a representar no Municipal, a primeira negra a protagonizar uma novela (na Globo). Chorando a morte da amiga, Milton Gonçalves disse que ela foi uma dama. Mas foi como escrava, em Sinhá Moça, produção da Vera Cruz, que ela quase ganhou o prêmio de interpretação no Festival de Berlim. Esse ‘quase’ a acompanhou a vida toda, como se fosse reconhecimento suficiente para uma atriz negra brasileira, nos anos 1950. Ruth integrou o elenco do pioneiro Teatro Experimental do Negro, grupo formado por Abdias do Nascimento. Pisaram no sagrado palco do Municipal coim um O’Neill, O Imperador Jones. Veio depois o reconhecimento, mesmo sem prêmio, em Veneza. No cinema, estreou no papel de uma doméstica em Terra Violenta, de 1948. Filmou, senão muito, bastante, o suficiente para marcar presença e valorizar papéis quase sempre secundários em Sinhá Moça, Ravina, A Morte Comanda o Cangaço, O Assalto ao Trem Pagador, Jubiabá, As Filhas do Vento. Joel Zito Araújo, que a dirigiu no último, mostrou, em A Negação do Brasil, como o País é injusto (preconceituoso?) com seus artistas negros. Justamente por As Filhas do Vento, foi melhor atriz em Gramado, prêmio dividido com Léa Garcia, uma das homenageadas deste ano no Festival Latino. Ruth de Souza fez menos teatro, mas alguns textos fundamentais – Calígula, Vestido de Noiva, Oração para Uma Negra, Vereda da Salvação, Réquiem para Uma Negra, etc. Na TV, participou do Grande Teatro Tupi, nos anos 1950, e depois fez muitas novelas. A Cabana do Pai Tomás, O Bem Amado, Os Ossos do Barão, O Rebu, Fera Radical, Rainha da Sucata, O Memorial de Maria Moura e um grande, imenso, etc, incluindo, no ano passado, uma participação, como ela mesma, em Mister Brau, a série de Jorge Furtado e Adriana Falcão com Lázaro Ramos e Taís Araújo. Ruth foi guerreira, abriu portas, desbravou caminhos para que outros talentos negros obtivessem reconhecimento (talvez até maior que o dela). Mais dois anos e teria sido centenária. Merece todo respeito. E descansar em paz.