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Rumo à quarentena (e a fábula espiritual de Fellini)

Luiz Carlos Merten

16 de março de 2020 | 23h31

Parou tudo. Hoje pela manhã tive uma cabine exclusiva para mim de La Liberté, o novo Albert Serra. Ele concordou em me dar uma entrevista por telefone, mas eu precisava ver o filme. Ainda estou deglutindo o que vi. Albert Serra não é mole – literalmente. A estreia, de qualquer maneira, está suspensa. Itaú Augusta, Arteplex, Belas Artes, Cinesesc – todos fecham a partir de amanhã. O É Tudo Verdade foi cancelado e vai para o segundo semestre. No Jornal Nacional, a Globo anunciou que está parando a gravação das novelas e deve apresentar no horário versões compactas de novelas de sucesso. A medida, apontada como sintoma de responsabilidade social – e é -, serve como contraponto à irresponsabilidade do presidente, cujo comportamento inadequado no fim de semana, indo à manifestação, fazendo selfie, abraçando, etc, foi assunto mundial. Havia comprado ingresso para ver o Satyricon, na retrospectiva de Federico Fellini, amanhã no fim da tarde, mas não vai dar. O pior é que ninguém sabe quanto isso vai durar. É uma situação nova para mim – para todos. Fellini estava lotando o Cinesesc. Eu sei por que fazia parte daquele público. No domingo à noite assisti a La Strada/A Estrada da Vida. Um Fellini neo-realista, de 1954, com Giulietta Masina, Anthony Quinn e Richard Basehart. Na verdade, um Fellini que se desembaraçava da herança neo-realista para ingressar no realismo interior que daria a tônica do seu cinema, nos anos seguintes. Tentei, mas não consegui entrar no clima. Aquela representação da miséria, o patetismo da interpretação da Masina como Gelsomina, a brutalidade de Quinn como Zampano, só consegui ser tocado pelo Louco, o Matto de Basehart. Sobre o que é mesmo o filme? Pauline Kael não gostava da fábula espiritual de Fellini, mas tinha uma interpretação interessante do filme. Dizia que era sobre como uma concepção romântica pode modificar a extrema pobreza. Gelsomina, a alma; Zampano, a força bruta; o Matto, a mente. Esse é quem, de certa forma, encerra o sentido de La Strada, ao explicar a Gelsomina que todo mundo tem um propósito no universo. E qual é o dele, o dela? Ambos vão terminar furando a couraça protetora de Zampano para expor a vulnerabilidade do bruto. O tema é cristão – o sacrifício – levando à remissão pelas lágrimas. Essa é uma possibilidade e, segundo Kael, mesmo quem rejeita as ideias do filme pode ser tocado por sua atmosfera, ou por detalhes de certas cenas. Nada é mais emocionante, agora sou eu que digo, que a trilha de Nino Rota, a canção que o Matto ensina a Gelsomina e que ela toca no trompete. Outra é a interpretação de Georges Sadoul, que via no filme, há quase 70 anos, a crítica de Fellini à mulher-objeto. O Matto diz que até Gelsomina, com sua cabeça de alcachofra e a pedra que ele apanha do chão possuem propósitos no mundo. Para Zampano, Gelsomina serve para cozinhar, tocar o tambor nas suas apresentações como artista de rua e, eventualmente, fazer sexo. Sadoul, comunista histórico, via em Gelsomina a proletária. As lágrimas de arrependimento de Zampano não a salvam, mas equivalem a um reconhecimento, a posteriori, de que as mulheres não podem ser tratadas assim.