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Rossellini no Cinesesc, o que resta de nossos amores?

Luiz Carlos Merten

01 Junho 2018 | 10h39

Não creio que, do ponto de vista da desdramatização do roteiro – um dos pilares do cinema moderno, transformada em improvisação controlada pelos autores da nouvelle vague -, um filme como De Crápula a Herói/Il Generale della Rovere, de 1959, tenha a mesma importância de Roma, Cidade Aberta, de 1945, na (r)evolução estética de Roberto Rossellini, mas se tivesse de escolher um filme, e um só, do diretor, seria aquele. Vittorio De Sica, o crápula infiltrado com integrantes da resistência durante a ocupação alemã da Itália. Ele está ali como informante dos alemães, fazendo-se passar por um herói, o general Della Rovere. Está ali para trair, mas conhece um tal respeito dos homens que aquilo fortalece nele resquícios perdidos (e reencontrados) de dignidade. O crápula vai viver e morrer como herói, redimindo-se de uma vida de miséria. Il Generale Della Rovere é o ‘meu’ Rossellini. Infelizmente não foi escolhido por Adriano Aprà para integrar o ciclo, não retrospectiva de Rossellini, ora em cartaz no Cinesesc. Ao contrário da grande retrospectiva de Luchino Visconti, essa é pequena, apenas 6 filmes. Não adianta procurar Viagem na Itália, lançado, nos anos 1950, como Romance na Itália, com Ingrid Bergman e George Sanders. Jean-Luc Godard, François Truffaut e os demais críticos de Cahiers du Cinéma tinham tal apreço por Viaggio in Italia que o filme foi escolhido por eles um dos 12 melhores de todos os tempos. A odisseia de um casal. O desejo de viver inclui, como contrapartida, a aceitação da morte. Rossellini e as mulheres. Como Ingmar Bergman, ele era um sedutor, impulsionado pelos amores, mas não se comparava ao sueco, que era pura testosterona. No documentário Bergman – Um Ano numa Vida, Jane Magnusson lembra o mítico 1957. Bergman estava no auge, fazendo grandes filmes, grandes montagens e até incursionando, com êxito, pela TV. Nos sets, suas mulheres. As que amamentavam, as que estavam grávidas e as que ele ainda ia engravidar. Uma festa permanente de libido. Eram outros tempos, outras concepções de amor, sexo e liberdade. Pelos padrões atuais, o que poderia ocorrer com Bergman? Como seria enquadrado? O ciclo Rossellini traz filmes reconhecidos como clássicos – Roma, Cidade Aberta, Paisà, Alemanha Ano Zero, Stromboli, O Medo, Índia… Nenhuma grande descoberta, só, talvez, os mais conhecidos e dissecados filmes do diretor. Eu confesso que preferiria (re)ver Francesco, Giullare di Dio ou então a polêmica produção por volta de 1960 – Era Notte a Roma, Viva l’Italia, Vanina Vanini e Anima Nera -, que foram seus filmes de crise. Na Itália que dera as costas ao neorrealismo, e na qual Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni, Federico Fellini e o o novato Francesco Rosi destacavam-se com suas novas estéticas, o cinema de Rossellini corria o risco de ser considerado ultrapassado. Mas ele se reinventou, na TV, com A Tomada do Poder por Luís XIV. Entrei agora no site do Cinesesc e descobri que alguns dos filmes programados já estão esgotados – Paisà parece o mais requisitado. Vou tentar descobrir o que resta. Algum Rossellini sempre vale rever.