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Rossellini maior

Luiz Carlos Merten

04 de junho de 2015 | 11h04

PARIS – Havia me programado para ver Alemanha Ano Zero e já o fiz. Não sou rosselliniano de carteirinha e, para dizer a verdade, o filme emblemático de Rossellini é o que menos me roca. Não falo de Roma Cidade Aberta, mas de Viasgem na Itália, cuja desdramatização de roteiro influenciou gerações de novos cineastas na França (François Truffaut) e no Brasil (Paulo César Saraceni), nos anos 1950 e 60. Mas gosto de alguns filmes de Rossellini e dessa mistura visceral de arte e vida que foi sempre uma marca do seu trabalho. Gosto de Francisco, Arauto de Deus, de De Crápula a Herói e gostei de Alemanha Ano Zero. Rossellini dedica o filme as seu filho Romano, que havia morrido. E cria esse pers0nagem de garoto que vaga entre os escombros de uma Berlim bombardeada, destruída. O cemitério das ilusões da infância. Edmund (Meschke) tem de ajudar a família, cometendo pequenos delitos. A irmã prostitui-se, o irmão vive clandestino e o pai está morrendo. Sob a influência do ex-professor nazista (e pedófilo), Edmund comete um crime sem volta e leva seu desgosto perante o mundo a uma situação sem saída. Rossellini filma sua ficção como se fosse um documentário. Não emite juízos morais sobre esse mundo degradado. Olha o garoto com frio distanciamento, sem forçar a empatia do público nem apelar para o sentimentalismo, ou o didatismo. A quintessência do neo-realismo. Mas acho que, no fundo, essa distância toda é só aparente. A música de seu irmão, Renzo Rossellini, está ali para intensificar as emoções de Edmund e expressar o que ele cala. Aproveitando a reestreia em cópias restauradas de Alemanha Ano Zero e A Tomada do Poder por Luís XIV, a Filmoteca do Quartier Latin e o Instituto Dante Alighieri estão promovendo com a associação Nacional Partisans d’Italie o ciclo Cinema a Resistência, com filmes de debates. Roma Cidade Aberta, De Crápula a Herói/Il Generale dela Rovere, O Jardim dos Finzi-Contini e Paisà. Rossellini e De Sica, os dois patronos/profetas do neo-realismo. Essa tem sido uma viagem de reencontros e descobertas. Rever Rocco e Seus Irmãos em Cannes, Alemanha Ano Zero, A Tomada do Poder e Umberto D nos cinemas de Paris, assistir a trechos de De Crápula a Herói em Cinecittà e admirar a Pietà e a Capela Sistina no Vaticano me deram um banho de humanidade (e cultura). Ando num estado de exaltação que nem eu me aguento.