As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

RoboCop com cara

Luiz Carlos Merten

18 de fevereiro de 2014 | 09h20

PARIS – Corri ontem à Cinemateca Francesa para venerar meu amado Henry Hathaway, objeto (sujeito?) de uma retrospectiva que vai até o começo de março. Revi Nevada Smith, que o mais sádico dos grandes diretores norte-americanos – Sam Peckinpah deve ter apreendido com ele – realizou com base no personagem de Harold Robbins em Os Insaciáveis, de Edward Dmytryk. Não é o melhor Hathaway, mas gostei de ver. E, de certa forma, foi um preparativo para o RoboCop de José Padilha, a que assisti em seguida. Max Sand/Nevada Smith, o grande Steve McQueen – o astro, não o diretor -, persegue os assassinos do pai, obcecado por vingança. Confrontado com a garota religiosa e o monge franciscano, Suzanne Pleshette e Raf Vallone, ele se redime poupando justamente o mentor do crime, mas o filme não seria de Hathaway, se Nevada não disparasse antes na mão e nas pernas do cara, para deixa-lo aleijado. Lembrei-me do pobre Jeff Bridges, tratando como shit (merda) o Rooster Cogburn de Hathaway e John Wayne para incensar o dos Coen na nova versão de Bravura Indômita. Go fuck you, Jeff… Já tinha ido muitas vezes à Cinemateca, em Bercy, mas, não sei por que, nunca visitara a livraria. Como cheguei ontem cedo, resolvi dar uma olhada. Pirei. É livro demais – em francês, inglês. Namorei uns quantos, mas comprei somente o Eric Rohmer (Frippones de Porcelaine) que, como todo livro do autor, Antoine de Baecque (aqui, em parceria com Noel Herpe), é volumoso – uma brochura de mais de 600 páginas. Tudo sobre Rohmer – você sabia que seus 30 e poucos filmes fizeram 25 milhões de espectadores, somente na França? Autor pessoal, radical, Rohmer é a prova de que é imaturo desdenhar do mercado. Mais importante é subvertê-lo desde o interior, cavar seu nicho, dominá-lo. E aí fui para o Padilha. Em Berlim, e não sem surpresa, senti certo prazer (sádico, à Hathaway) de coleguinhas porque, segundo eles, RoboCop está sendo um flop nos cinemas dos EUA. Eu gostei e, mesmo não tendo lido a matéria de Isabela Boscov na Veja, me basta o título – O homem que venceu a máquina. Padilha venceu duplamente. Imprimiu sua marca e usou a máquina de Hollywood, mas seu personagem também vence, porque sua consciência se superpõe ao robô em que as indústrias de Michael Keaton e seu porta-voz na mídia (Samuel L. Jackson) querem transformá-lo. Existem muitas coisas interessantes e inteligentes no filme. De cara, a plateia francesa reagiu – Uowwwww -, quando o tira dá uma pegadinha na mulher. Filme de ação de Hollywood não tem disso, não, mas com Padilha tem. Amo a atriz, Abby Cornish, mas pírei com o RoboCop dele. O de Paul Verhoeven era mais divertido, certo, mas Padilha trabalha em outro registro, mais grave (trágico?) e isso pode ter assustado o público. Seu filme tem muitas frentes. O comprometimento da ciência, a manipulação dos políticos e da mídia pelo grande capital, a habilidade com que certa imprensa distorce fatos para criar seus defensores da pátria etc. Mas o que mais gostei foi o seguinte – o RoboCop de Verhoeven era, basicamente, uma boca que ressaltava daquela armadura. O de Padilha tem uma cara, tem olhos e isso reforça sua luta para permanecer humano. Não sei nem quem é o ator – vou pesquisar -, mas sua cena de dança com a mulher (Abby), ao som de Sinatra, me ganhou. O charme viril, a anima… Padilha é f…

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.