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Robin Hood dos videogames

Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2018 | 12h22

Tenho ouvido, ou melhor, lido as maiores asneiras sobre Robin Hood – A Origem, que estreia nesta quinta, ou seja, amanhã. A nova versão da história do ladrão da floresta de Sherwood, que rouba dos ricos para dar aos pobres. Os coleguinhas não estão resistindo ao trocadilho – ele rouba duas horas de sua vida. Não da minha. A origem do título refere-se não somente à construção da lenda – do herói -, mas também do vilão. No centro da construção da fábula, uma mulher, que os dois homens vão desejar. Taron Egerton traz para o papel o entusiasmo juvenil de seu Kingsman, Jamie Dornan cria um personagem com áreas nebulosas como seu milionário na série 50 Tons. Como sempre, em se tratando de blockbusters, não tinha lido nada. Vivi uma experiência curiosa. Sabia que conhecia o cara, Jamie, mas quem era? O outro Jamie, Foxx, fica com o papel do mouro, que Morgan Freeman interpretou na versão de Kevin Reynolds, com Kevin Costner. O herói vai para a guerra – as Cruzadas -, conhece o inferno, tenta impedir injustiças (a morte do filho de Jamie Foxx) e volta, muitos anos depois, para descobrir que a mulher não esperou e se casou com outro, Dornan. Esse é um lobo em pele de cordeiro, um arrivista que espera tirar proveito da liderança que exerce sobre os mineradores do reino. No desfecho, seu rosto expressa a dualidade, mas o que ele não sabia é que a mulher era uma subversiva, lutando contra o xerife, mancomunado com a Igreja de Roma, e quem faz o cardeal corrupto é F. Murray Abraham, o Salieri de Amadeus. No mínimo fora dos padrões um filme em que o árabe é o depositário da nobreza e da ética – como o Saladino de Ridley Scott em Cruzada. Achei os personagens masculinos mais bem construídos que a mulher. Aliás, tive de pesquisar para saber quem é Eve Hewson, filha de Bono e atriz de Papillon e da série de Steven Soderbergh, que nunca vi, The Knick. O que importa é a ação vertiginosa – os arqueiros que disparam suas flechas enquanto voam, as carroças que disparam feito carros envenenados – e a extravagante mistura de gêneros e estilos, com uma festa ‘eclesiástica’, em homenagem a Vossa Eminência, o Cardeal, que mais parece um bordel em funcionamento, mais animado do que aquele em que se forjou Charlie Hunnam como futuro rei da Inglaterra, em Arthur. Nada disso se pauta pelo realismo, e a Idade Média de Otto Bathurst tem um look futurista – intemporal? -, que lembra Guy Ritchie. Como o filme teve, como se diz, a pior abertura de um blockbuster do ano, imagino que não vá ter sequência. Eu me animava a ver, embora seja o primeiro a reconhecer que qualquer um que se disponha a levar esse Robin Hood a sério deveria ter a cabeça examinada. Desde o Robin Hood de Michael Curtiz, com a dupla clássica Errol Flynn/Olivia de Havilland, o cinema contou muitas vezes as aventuras do célebre personagem. Por volta de 1990, saíram dois filmes simultaneamente, o de Kevin Reynolds com Kevin Costner, O Príncipe dos Ladrões, e o de John Irvin com Patrick Bergin, O Herói dos Ladrões, no qual Uma Thurman fazia uma Maid Marian sensacional, talvez a melhor de todas. Houve a versão paródica de Mel Brooks – A Louca Louca Aventura, em que Carey Elwes fazia um Robin bonitinho mas ordinário, e a Ridley Scott com Russell Crowe e Cate Blanchett, que se levava excessivamente a sério. A melhor de todas, para mim, é a de Richard Lester, com Sean Connery como o envelhecido Robin que volta das Cruzadas e encontra sua Marian/Audrey Hepburn no convento. Otto Bathurst criou um Robin Hood para o século 21 e a era dos videogames. Não é nem um pouco razoável, exagera. É o que faz a diversão, um Robin Hood que os fundamentalistas de Donald Trump estão odiando. Pensando bem, talvez se deva levar a sério esse herói dos ladrões e seu mentor, o mouro, que não acreditam na filiação de Jerusalém ao Ocidente judaico/cristão.