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Roberto Farias

Luiz Carlos Merten

07 de setembro de 2012 | 11h25

BELO HORIZONTE – Tenho tempo para um post rápido. Não quero ser leviano, até porque é um assunto que estou pegando de orelha, um comentário feito aqui, outro ali. Roberto Farias tem estado sob suspeita. No ano passado, ele integrou o júri do Festival do Rio que premiou o ‘Matraga’ de Vinicius Coimbra. Vinicius é diretor da Globo, Farias também – não sei exatamente qual é seu cargo -, e como reação ao prêmio surgiu a questão ética. Farias não poderia ter votado. Confesso que minimizei o fato porque a excelência do filme de Coimbra me parecia tão indiscutível face aos demais concorrentes – na entrevista que fiz com ele por ‘360’, Fernando Meirelles me disse que era o melhor filme recente que havia visto – que eu teria achado um escândalo se Farias, para mostrar independência, não tivesse votado nele. Não entendia a teoria da conspiração, como se a cúpula da Globo tivesse forçado Farias a votar no colega, ou como se o próprio Farias estivesse bajulando Coimbra. Enfim, em Gramado, Farias integrava de novo o júri, havia o documentário de Pedro Bial (e do Canal Brasil) sobre Jorge Mautner. Farias é sócio do Canal Brasil, o filme não ganhou o Kikito principal, mas foi premiado e mais uma vez houve suspeita. De novo estou falando de orelhada. Não fui a Gramado, não li a cobertura da imprensa e mal e mal sei que ganhou um filme sobre portadores da síndrome de Down. Mas é uma situação delicada e que compromete filmes e figuras a quem admiro e respeito. Sei lá, seria bom se os organizadores de festivais avaliassem essa questão e os eventuais jurados também avaliassem seu possível ‘comprometimento’, embora quase todo mundo já tenha trabalhado com todo mundo e seja amigo de todo o mundo no cinema brasileiro. Por experiência própria, sei como é difícil o trabalho de convencimento quando a gente integra um júri. Se Farias tivesse conseguido mudar os votos dos colegas nos júris do Rio e Gramado para atender a uma agenda, digamos, ‘viciada’ – em tempos de mensalão é fácil destruir reputações nas mais variadas áreas -, o cara seria um fenômeno. Mas, enfim, se abordo o tema é porque quero ressaltar o seguinte – há uma retrospectiva de Roberto Farias no Centro Cultural Banco do Brasil. Imperdível. ‘Parece’ que tem todo o Farias, mas a mim, pessoalmente, interessa somente a trilogia informal que ele fez nos anos 1960. Começa com ‘Cidade Ameaçada’, prosseguiu com ‘Assalto ao Trem Pagador’ e desembocou em ‘Selva Trágica’. Confesso que tenho até medo de (re)ver o último. Apesar de Glauber, Nelson e Humberto Mauro, ouso dizer que ‘Selva Trágica’ é o meu ‘Rocco’ no cinema brasileiro – até por ser um filme viscontiano. Quero dizer que é o meu cult, o filme que vem em primeiro lugar sempre que cobram uma definição de meus filmes preferidos. Não tenho tanto apreço por ‘Pra Frente Brasil’, que Farias fez para retratar o Brasil da ditadura militar, criticando a alienação dos brasileiros (e usando a manipulação do povo pelo regime a partir da vitória da seleção na Copa do México). Alienação por alienação, empaco com o filme, que é eficiente, à maneira de Costa-Gavras, porque acho que teria sido mais honesto Farias lembrar que, na época, ou pouco antes, estava fazendo sua trilogia com Roberto Carlos. Essa outra trilogia não me interessa, mas a primeira, e ‘Selva Trágica’, fazem parte do meu imaginário. Espero que aqueles três filmes continuem tão vivos e fortes, e Reginaldo Faria tão maravilhoso, quanto é nas minhas lembranças. Tenho até medo de fazer o convite. Vejam os filmes. Ultimamente, tudo o que toco no cinema brasileiro não tem muita repercussão na bilheteria. O melhor nacional do ano, por força de um lançamento sacrificado, quase não foi visto – ‘Sagrado Segredo’, de André Luiz Oliveira. ‘Totalmente Inocentes’, de Rodrigo Bittencourt, sai com 100 cópias e faz histórias porque são todas digitais. Achei o final, ao som de Gonzaguinha, empolgante (e vem aí o ‘Gonzagão’ de Breno Silveira). O público não está indo ver cinema brasileiro. Tem algum efeito ‘Avenida Brasil’ nisso? O sucesso da novela prende o público em casa. Bastam aquelas imagens, e personagens, para quem busca dramaturgia brasileira? A pergunta fica no ar.

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