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Roberto Farias no meu panteão; Selva Trágica é um dos filmes da minha vida

Luiz Carlos Merten

19 Maio 2018 | 05h14

CANNES – Estou escrevendo daqui, mas o post vai ser outra pausa no festival. Vivendo no meu mundo à parte, desligado das redes sdociais – mesmo durante um festival como Cannes -, só soube depois da morte de Roberto Farias. E ainda me contaram como chacota, para fazer troça do inominável – Temer, claro. O presidente, ao lamentar a morte do cineasta, creditou-lhe Toda Nudez ou algum outro filme de Arnaldo Jabor. Roberto Fareias faz parte do meu panteão graças à trilogia (informal) constituída de Cidade Ameaçada, O Assalto ao Trem Pagador e Selva Trágica. O terceiro é um dos filmes da minha vida. Vocês não sabem o que era ser jovem e ver aquela história desenrolada na fronteira paraguaia, sobre um cara forçado a trabalhar feito escravo e uma mulher a se prostituir. Luchino Visconti no Brasil. Roberto Farias veio da indústria, da Atlântida, onde, aliás, se iniciou como diretor. Virou cinenovista meio à força, imagino que porque o movimento queria capitalizar seu sucesso de público e incorporar uma vertente urbana às vias do sertão. Roberto sabia da minha paixão por Selva Trágica e várias vezes me contou a história. O fracasso de público do filme forçou-o a aderir a um cinema mais leve – comercial já era, como opção estética. Roberto Farias fez os filmes com o outro Roberto, o Carlos. O pau comendo na ditadura, tortura e o escambau, e Farias a 300 km por hora, com o ‘rei’. E então veio Prá Frente Brasil. A importância do filme foi indiscutível, mas nunca deixei de lhe cobrar. Ao denunciar a máquina de repressão da ditadura e a alienação produzida pela midiatização da euforia pela vitória na Copa, Roberto deveria ter feito a autrocrítica do próprio papel nos filmes com Roberto Carlos. Tinha um respeito sem limites por ele. Teve um papel decisivo na defesa do mercado. Foi guerreiro. Foi artista. Selva Trágica é uma obra-prima. Feito bicho, o trabalhador tem de levantar aquela carga imensa. A câmera, no solo, participa do esforço para que se coloque de pé. Ufa! Reginaldo Faria, Rejane Medeiros. Existem filmes gravados a ferro e fogo no meu imsginário de cinéfilo. Selva Trágica é um deles.