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Robert Lepage e a memória em tempos de celular

Luiz Carlos Merten

28 Setembro 2018 | 09h51

Fui ver ontem o Robert Lepage no Sesc Pinheiros, 887. De cara ele conta a gênese do espetáculo. Foi convidado para um evento tradicional de poesia no Canadá e a organização lhe pediu que recitasse um texto de memória. Ele topou, Ok, mas quem diz que conseguia memorizar os versos? A partir daí, o próprio Lepage, também ator, informa que vai investigar a memória. E ele acrescenta que o desenvolvimento tecnológico está criando mecanismos para facilitar a vida das pessoas. Você não precisa mais saber o número do seu telefone porque, no celular, basta acionar um ícone. Só que ele tenta criar seus mecanismos de memorização a partir de um número de telefone, mas como? Teria de memorizar antes os números… A essa altura, uma mulher atrás de mim ria histericamente, certamente disposta a demonstrar para todos nós, o público, que estava captando a ‘mensagem’ mais rapidamente que qualquer outra pessoa. Ai, meu saco. Ela permaneceu assim até o fim e, à frente, outra mulher – vou chamá-la de a ‘ansiosa’ -, deve ter achado que duas horas desconectada do mundo eram demais para ela e passou meio espetáculo conferindo seu celular e enviando mensagens. O que Lepage está querendo dizer sobre o estado do mundo tem muito a ver com o comportamento dessas duas. São cases. Sinto, não é nenhuma discriminação de gênero. Se fossem homens, os xaropes, eu diria, mas eram mulheres. No palco, Lepage, nosso protagonista, fica o tempo todo tentando lembrar – o poema – e na verdade ele está lembrando sua infância em Quebec numa determinada rua, num determinado prédio, numa determinada época. Os vizinhos, a família. E os acontecimentos. O movimento por Quebec Libre, a pequena história contaminada pela grande História e, de repente, ele chega ao ponto. O poema Speak White, Falar (como) Branco, refere-se à época da escravidão, quando os negros eram obrigados a falar a língua de seus patrões. Metaforicamente, ao lembrar o movimento de emancipação de Quebec, Lepage está falando sobre a dominação inglesa do seu país – na língua, na cor da bandeira, e nas lutas pela liberação, quando até o General De Gaulle visitou a região para exortar os canadenses franceses a reagirem. Só que Lepage não faz isso isso usando uma linguagem tradicional de teatro. Sendo um artista multimídia, ele monta uma parafernália no palco. Maquetes, telões, e tudo isso faz parte do mesmo movimento de imposição tecnológica que transformou o celular na ferramenta imprescindível desses tempos consulsionados. Há mais de 50 anos, Michelangelo Antonioni, numa cena de O Eclipe, mostrou Monica Vitti vestida de africana, numa dança selvagem. Ela se vê refletida num espelho, percebe o ridículo da coisa – e pára. Antonioni estava querendo dizer que o homem moderno perdeu o sentido do primitivo e vivia alienado nas grandes cidades. Lepage nos mostra como escravos da tecnologia. Nem o número do telefone sabemos mais. Estou falando num ‘nós’ metafórico. Não vi nada de muito divertido – de morrer de rir; afinal, Lepage não é um stand up, não? -, e na verdade toda essa inteligência ‘dramática’ me pareceu meio de segunda, porque numa cena ele usa a planta dos apartamentos geminados para falar das duas metades do cérebro. Como funcionam? Alain Resnais, Meu Tio da América, 1980. Henri Laborit, filósofo do comportamento animal, e do comportamento humano. Nada é realmente novo nessa encenação vanguardista à retaguarda. Permanecem poucos os artistas que têm um pensamento realmente original. O Lepage de 887 é muito mais um reflexo desses tempos de crise. Os incautos que o comprem.