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Rir com Bruno Dumont?

Luiz Carlos Merten

30 de maio de 2013 | 13h09

PARIS – Nunca passei uma temporada como esta em Paris. Chuva direto. A primavera podre não se abateu somente sobre a Côte d’Azur. Tem sido assim na capital. Agora mesmo voltei ao jornal porque me molhei todo na saída do local das entrevistas, o Grand Hotel Intercontinental, na  Opéra. Tenho não apenas tido encontros interessantes, com artistas – diretores e atores – que conheço e/ou admiro, como tenho conhecido gente adorável. Hoje, por exemplo, reencontrei Danièle Thompson e, mesmo que não a tenha entrevistado, conversamos sobre a exibição da versão restaurada de A Rainha Margot em Cannes Classics e ela me fez revelações bem interessantes. Danièle foi roteirista do filme que Patrice Chéreau adaptou de Alexandre Dumas. Trabalharam durante três anos (três!). Conversamos sobre a beauté charnelle e o esplendor físico de Isabelle Adjani e Vincent Perez, mas gostei mesmo quando o assunto caiu em Catarina de Médicis, interpretada por Virna Lisi. A primeira escolha de Patrice Chéreau para o papel havia sido Sophia Loren, mas houve sei lá que impedimento e ele passou a procurar outra atriz italiana. Tombou sobre Virna Lisi, que havia sido uma comediante de sucesso no começo dos anos 1960 – filmou até em Hollywood, Como Matar Sua Esposa, de Richard Quine, com Jack Lemmon -, mas Virna se casara e vivia num palazzo com o marido riquíssimo. Ele foi procurá-la. Falou no papel, a rainha-mãe que sacrifica os filhos no jogo do poder. Virna ouvia sem dizer nem que sim nem que não. E aí ele fez a ressalva, ela teria de raspar metade da cabeleira, para deixar a testa completamente limpa, e isso poderia não beneficiá-la em termos de beleza. Virna saltou na poltrona – seu sonho era ficar feia. Topou na hora. Não me lembro, em toda a história de Cannes, de que outra coadjuvante tenha recebido o premio de interpretação, mas Danièle foi dura. Disse que foi manobra do júri para não dar o prêmio de interpretação para Isabelle, que o júri, se quisesse premiar Virna, poderia ter premiado as duas etc. Adoro essas histórias que me dão uma visão muito rica de bastidores. Fiz hoje entrevistas – e aí foram entrevistas mesmo – com Jean-Pierre Bacri, o companheiro de Agnès Jaouï, com Bruno Dumont, com quem ri bastante. Ele me disse que vai fazer para TV uma série, uma enquete policial na mesma região dos ch’tis e eu, que não consigo imaginar o Dumont fazendo comédia, perguntei, às gargalhadas, se ia ser um remake cômico de Flandres ou de L’Humanité? Ele, me tutoyant, perguntou ‘Mais tu te môques de moi?’ E riu mais que eu. Adorei, e comecei a achar que ele poderá acertar o tom. E houve o encontro com Remi Besançon, que após filmes live action, fez uma animação – Zarafa, baseada numa história real da França, quando o bei do Egito enviou ao rei Charles XI uma girafa de presente. O filme pode agradar às crianças, mas é principalmente um desenho para adultos, por sua complexidade (e seus temas). Ocorre que ontem à noite queria ver alguma coisa nos cinemas e perdi o Almodóvar. Sobrou pelo horário e pelo local onde estava, Very Bad Trip III, Se Beber não Case 3, que achei o melhor (menos ruim?) da série, embora não seja exatamente uma comédia louca (tem muito de polar, de policial). Quem já viu o filme, ou for ver hoje, talvez tome um choque com o episódio da girafa e o que ocorre com ela, logo no começo. Eu já sabia do meu encontro hoje cedo com Besançon e fiquei com o riso engasgado enquanto a plateia, politicamente incorreta, ria desbragadamente. Contei para o diretor e acho que isso descontraiu o clima da entrevista, ainda mais que Besançon tem – vejam só – uma produtora brésilienne. Tenho somente mais uma entrevista para fazer, amanhã, com Anne Fontaine. Agora à noite, vou ao teatro ver um Beckett com Catherine Frot, que entrevistei por Les Saveurs du Palais.

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