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Rio de lágrimas

Luiz Carlos Merten

09 Setembro 2013 | 22h30

Emma ficou louca para ver Eu Anna – era o objetivo do post, despertar o tesão -, mas aproveita para me corrigir, quando cito o thriller de Harold Becker com Al Pacino e Ellen Barkin, Vítimas de Uma Paixão. O título original é Sea of Love, e não Sea of Grass, como escrevi. Claro, Sea of Love é uma canção e serve de fundo à história que Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, define como sendo de um ‘erotismo sulfuroso’. Sea of Grass, Mar Verde, foi o segundo longa de Elia Kazan, pelo qual o próprio autor não tinha muito apreço. No livro com a entrevista que deu a Michel Ciment, Kazan conta que estava muito orgulhoso da história. Em 1947, ele ainda era comunista de carteirinha e, mais que nas implicações fordianas da história de um criador de cavalos, pensava em Dovjenko e em Terra, o mais belo poema revolucionário do cinema. Mar Verde foi um inferno para ele. Spencer Tracy, que devia interpretar meio filme a cavalo detestava os animais, e os cavalos o detestavam mais ainda – bastava se aproximar e era o caos no curral. Katharine Hepburn dividia a cena com ele. Kazan conta que uma das primeiras cenas, senão a primeira que filmou com ela, era uma despedida. Katharine chorou de verdade, e Kazan achou o máximo, mas depois descobriu que ela chorava por qualquer coisa e difícil era evitar que não chorasse. Para complicar, o filme estava sendo feito na Metro e o poderoso Louis B. chamou Kazan em seu escritório para dizer que não estava gostando do material. Citou a cena do choro de Hepburn. Kazan defendeu sua criação com veemência. Ainda era um novato em Hollywood, vindo do teatro. Louis B. Mayer lhe disse – “Você não está entendendo; ela não está chorando direito.” Como? “As lágrimas não estão escorrendo corretamente.” Kazan ainda falou na emoção autêntica. Louis B. lhe disse – “Meu filho, aqui nós fabricamos emoções e elas têm de ser bem feitas. As lágrimas têm de cair na vertical; desse jeito, estão empastelando a maquiagem. Agora vá lá e faça certo. Não quero precisar chamá-lo aqui de novo.” Sensacional. Sempre achei essa história genial. Isso (também) era Hollywood.