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Rilke, por Godard, e a beleza como terror que podemos suportar

Luiz Carlos Merten

02 de janeiro de 2020 | 09h41

Na entrevista no Cahiers, no ano passado – outubro de 2019 -, Jean-Luc Godard cita Rainer Maria Rilke. “A beleza é o início do terror que podemos suportar.”É uma frase enigmática, talvez ambivalente, e cada pode interpretá-la a seu jeito. Pretendo adotá-la. Foram duas leituras muito interessantes, a par do livro do Chico – Essa Gente -, ao longo desses dias de muita comemoração e bebedeira. Mais um ano, menos um ano. Godard, no Cahiers. E Greta Gerwig na Film Comment (de novembro/dezembro), sobre Adoráveis Mulheres. Godard lembra muito Schérer, nunca se refere a Eric Rohmer. (Maurice) Schérer foi seu amigo mais próximo na nouvelle vague, embora houvesse uma diferença de dez anos entre eles. Schérer sempre sabia a mulher que Godard estava amando, e vice-versa. Godard e os animais – Roxy, vencedor da Palme Dog, por Adeus à Linguagem. Ao mesmo tempo que levanta questões estéticas e políticas, a entrevista iluminar Godard, l’homme. Greta começa e termina seu filme com conversas de Jo e seu editor, a barganha dela (final) pelo copyright, para permanecer dona de seu material. É o que faz toda diferença, a modernidade, na nova versão de Little Women. Isso e, naturalmente, os boys franceses da diretora e roteirista – Chalamet (embora nascido em Nova York), Garrel e Desplat, Alexandre, o compositor, que assina mais uma trilha notável. A edição de Flm Comment, fechando 2019, reservou-me mais duas surpresas. Andrew Chan, editor web da Criterion Collection, resgata a adaptação de Toni Morrison por Jonathan Demme, Beloved. Em 1991, Demme fez história como um dos raros diretores a vencer o Big Five, os cinco principais Oscars, com O Silêncio dos Inocentes. Manteve o prestígio, apesar das polêmicas de Filadélfia – era sobre a luta de um soropositivo contra o sistema ou sobre um homofóbico que vence seu preconceito? Bem-Amada, título no Brasil, foi recebido a pedradas. Não sei, mas, às vezes, tenho uns pensamentos esquisitos. Acho que foi por causa de Oprah Winfrey. Oprah virou uma potência tão grande dentro do audiovisuasl e como influenciadora negra, nos EUA, que me pergunto se não há um sentimento contra? Até hoje considero um escândalo que não tenha recebido o Oscar de coadjuvante por A Cor Púrpura. Beloved, que ela própria definiu como sua Lista de Schindler e sua Escolha de Sofia, tubulou, mas agora está sendo resgatado. As raizes da escravidão, o horror, o horror. Falei em duas surpresas. A outra é o Roberto Rossellini revisto por Nick Pinkerton. Cranks for the Memories. Pós-neorrealismo, e Rossellini uma vez mais faz sua revolução, mostrando como o cinema conta a história em seus experimentos televisivos, a partir de A Tomada do Poder por Luís XIV. A Era dos Médici, Blaise Pascal, Descartes, Os Atos dos Apóstolos, etc. Boas leituras para iniciar 2020.

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