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Rigor e beleza das denúncias de Rosi

Luiz Carlos Merten

11 Janeiro 2015 | 15h48

Francesco Rosi morreu no sábado, em Roma, aos 92 anos. Desde 1997, com La Tregua, não filmava, mas foi homenageado pelos festivais de Berlim e Veneza, em 2008 e 2012. O mais talentoso diretor italiano de sua geração – e quem garante é Jean Tulard no Dicionário de Cinema -, foi também o mais combativo. Virou referência e excelência de cinema político. Cinema de denúncia. Ganhou o Leão de Ouro de Veneza por Le Mani sulla Città, em 1963, e a Palma de Ouro de Cannes, nove anos mais tarde, por O Caso Mattei, e neste caso o prêmio foi dividido com outro italiano, Eli Petri, por A Classe Operária Vai ao Paraíso. O cinéfilo que hoje assiste a O Bandido Giuliano não tem ideia do que foi o impacto de ver o filme em 1961. Creio que, no Brasil, estreou no ano seguinte. Meu irmão trabalhava na Varig. Me trazia sempre – morávamos em Porto Alegre – os jornais de Rio e São Paulo, e Nova York, Londres. Naquela época já tinha um interesse particular pelo cinema. Jean-Claude Bernardet era crítico da Última Hora. Escreveu, o que era raro, três textos sobre Salvatore Giuliano, três dias seguidos. Sei que perdi um, não lembro qual. Também não saberia repetir o que Bernardet escreveu, mas era algo muito forte e fascinante, para mim, exaltando a proposta inovadora – revolucionária? – do filme. Aquilo me fortaleceu o desejo, não de fazer filmes, mas de escrever sobre eles. Mas nada – nem o que Bernardet escreveu – me preparou para o impacto que experimentei ao ver O Bandido. Por mais nova que fosse a ideia do filme dossiê, do cinema documentado, não documentário, o que me impressionou, mais que o rigor, foi a beleza. Nunca tinha visto aquele preto e branco, aquela luz. Como gralhas, as mulheres de preto rodopiam ao redor do cadáver de Giuliano. E a mãe grita – Turiddu! Era como era chamado. São imagens que carrego comigo. Francesco Rosi foi colega de aula de Luchino Visconti e do futuro presidente da Itália, Georgio Napoletano. Um lhe abriu as portas da arte. Outro, da politica.  De Visconti, foi assistente – em La Terra Trema e Belíssima. Vi seus primeiros filmes depois de O Bandido Giuliano. La Sfida/A Provocação, com José Suarez e Rossana Schiaffino, e I Magliari/Renúncia de Um Trapaceiro, com Alberto Sordi e Belinda Lee. Essa última foi um furacão que assolou o cinema inglês e, depois, o italiano, por volta de 1960. Morreu prematuramente, num acidente de carro. Os dois filmes têm coisas boas, interessantes, mas Rosi deve ter-se dado conta de que, se seguisse naquela via, seria um epígono do neo-realismo, um diretor menor. Pegando a figura emblemática de Salvatore Giuliano e implodindo o relato tradicional, ele lançou nova luz sobre o massacre de Portella della Ginestra, que tanta sensação provocou na Itália e inspirou Visconti (em La Terra Trema). Em 1.º de maio de 1947, Salvatore e seu bando invadiram uma manifestação de trabalhadores. Mataram 11 e feriram 27. Por que? Sempre houve dúvidas quanto à motivação do bandoleiro. Ele se teria ligado à grande Máfia e aos patrões contra os trabalhadores, para sufocar a demanda por direitos. A velha tragédia do Sul. O filme discute o poder, que voltou a ser o tema de Rosi em Le Mani sulla Città, O Caso Mattei. Lucky Luciano, Cadáveres Ilustres – em toda a sua obra. Rejeitando a dramaturgia tradicional e o maniqueísmo, Rosi faz grandes filmes que deixa irresolvidos. São processos em aberto, como diz Tulard. Permanecem as dúvidas quanto ao acidente que matou Enrico Mattei – em 1997 a Justiça italiana decretou que foi atentado a bomba – e no final de Cadáveres Ilustres o Partido Comunista acata a versão oficial sobre a morte do juiz e seu secretário porque a verdade – o horror, o horror – nem sempre é revolucionária. Na rigorosa arquitetura dramática dos filmes de Rosi, existem os que dividem/desconcertam os críticos. O Momento da Verdade, sobre um toureiro, e C’Era Una Volta/Felizes para Sempre, sua fábula com Sophia Loren e Omar Sharif. Naquela arena, filmando o balé da morte entre o toureiro e a besta, Rosi fez os mais belos movimentos de câmera de sua carreira. Se um filme expressa o êxtase, pode ser aquilo. E a fábula…? É uma questão de entrar ou não em seu espírito. Não gosto muito de Carmem nem de Crônica de Uma Morte Anunciada, mas Uomini Contro, Cristo si è Fermato a Eboli e Tre Fratelli me deixam louco. Alain Cuny como o oficial do primeiro e Charles Vanel como o velho pai que os três irmãos  (Philippe Noiret, Vittorio Mezzogiorno e Michele Placido) vêm enterrar têm interpretações que figuram entre as minhas lembranças inesquecíveis. De repente, as mortes de Francesco Rosi, Anita Ekberg e (por que não?) Rod Taylor me dão vontade de chorar. Sinto-me solitário. Triste. E de alguma forma mais pobre, apesar do muito que me deram, Rosi, principalmente.