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Rico Parra, e o retrato do revolucionário em Topázio

Luiz Carlos Merten

11 de junho de 2019 | 17h56

Fazia tempo – décadas – que não revia Topázio, de Alfred Hitchcock. Na minha lembrança, era claramente um filme menor do mestre do suspense, mas com uma bela cena, a da morte de Juanita de Córdoba, quando Rico Parra desfere o tiro e ela cai, filmada em plongé, e o vestido abre-se como se Juanita fosse uma flor despedaçada contra o piso quadriculado, à maneira de um tabuleiro de xadrez. A Guerra Fria, a espionagem como um jogo mortal. Estava zapeando, na TV paga, quando entraram ontem as imagens de Havana, o discurso de Fidel Castro. Devo ter perdido metade do filme, mas ele nunca me pareceu tão interessante, e mesmo tão bom. Estarei enlouquecendo, perdendo o espírito crítico? Hitchcock, trabalhando sobre um caso de desfecho conhecido – a crise dos mísseis de Cuba. Como se constrói o suspense? Na verdade, e é a diferença entre mistério e suspense, o mestre sempre trabalhou com informações conhecidas do público para esculpir a tensão, e até o medo. Raras vezes, e estou pensando no final de Psicose, Hitchcock submeteu seus espectadores ao elemento surpresa de uma grande revelação. Já vi Psicose muitas e muitas vezes e o que me impressiona é como, conhecendo o filme de ponta a ponta, ainda fico com o coração na mão em certas cenas, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Topázio foi outra coisa, pelo menos como o revi. Baseado numa rede de espionagem real, possui um approach de documentário, uma frieza que permeia o relato e as interpretações. Todo o elenco masculino é opaco, como se esses homens, funcionários de agências governamentais, fossem destituídos de alma, e são. As exceções são as mulheres – Karin Dor, Dany Robin, Claude Jade. Nada me maravilha mais do que certas escolhas de diretores. Na época, Hitchcock chegou a testar Eva Wilma para o papel de Juanita, mas terminou escolhendo uma atriz alemã, uma ruiva, para fazer a latina. Na mesma época, senão no mesmo ano, Karin havia feito Com 007 Só Se Vive Duas Vezes, um papel completamente diferente e um dos destaques de sua carreira. Hitchcock transformou-a em morena, adotou outro figurino, criou uma personagem que talvez a própria Karin não soubesse que poderia fazer. E ainda tem John Vernon como Rico Parra, o revolucionário cubano. Jamais definiria Hitchcock como um autor de esquerda, mas Parra é o único, no elenco masculino, que possui uma dignidade, uma presença que me deixaram chapado. Quando ele cobra de Juanita por que traiu a revolução, me pareceu tão sincero. E não pode ser mera coincidência. Topázio foi adaptado (por Samuel Taylor) do livro de Leon Uris, que também escreveu Exodus, que virou filme de Otto Preminger. Dois filmes, e cada um deles possui um retrato de revolucionário que me parece raro no cinema. Rico, em Topázio, e o velho tio Akiva, interpretado por David Opatoshu, em Exodus, esse sim, o roteiro, escrito por um esquerdista histórico de Hollywood, Dalton Trumbo. Conheço bem os problemas que Hitchcock enfrentou durante a realização de Topázio. Ele estava inseguro como nunca, devido ao fracasso do anterior Cortina Rasgada, o estúdio o pressionava. Mais de 50 anos depois, vi outro filme na revisão.