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Revolução musical

Luiz Carlos Merten

14 Novembro 2016 | 17h05

Estou lendo o novo livro de Luiz Antônio Assis Brasil, O Inverno e Depois. É um escritor gaúcho que admiro muito. Assis Brasil não deixa de ser herdeiro de Erico, com sua literatura de fundo histórico. Cães da Província, sobre Qorpo Santo. Videiras de Cristal, sobre os Muckers. E Concerto Campestre, que amo. A música – o novo livro é sobre um violoncelista que foi bolsista na Alemanha, como o autor. Ele se isola numa fazenda da família para preparar composição de Dvorak, pela qual é obcecado. Julius é seu nome. É casado. Teve no passado, na Alemanha, esse caso com uma música uruguaia, Constanza Zabala. Estou curtindo os meandros musicais e afetivos. E hoje fui ver Coragem, um filme bonito de Sebastião Braga, parceria entre a produtora brasileira Feel e a francesa Day for Night. Inclusão social. Um violoncelista de Perus, São Paulo, estuda na França com uma professora romena. A arte do encontro. Anos atrás, ela se beneficiou de uma bolsa para estudar e hoje replica a experiência, agora na outra ponta. Achei o filme delicado e me parece curioso como todos esses documentários – Pitanga, Divinas Divas etc – celebram o encontro, propondo novos paradigmas para o formato consagrado de Eduardo Coutinho. Em princípio, Coragem não tem nada a ver com O Inverno e Depois, mas é incrível como a música, malgrado as diferenças, foi tecendo uma história comum. O fascínio pelo instrumento. Sebastião Braga termina seu filme com, a apresentação da Ojesp, a Orquestra Jovem de São Paulo no Festival Berlioz. O garoto de Perus ensaia passos de sambista e o público o aplaude de pé. Às vezes, tenho a impressão de que precisamos ser mais generosos. Aceitar essas impurezas como partes da nossa brasilidade. No sábado, fui cortar o cabelo e li, na Playboy – é minha leitura de barbeiro -, a entrevista do maestro João Carlos Martins. É uma vida que dá filme. Já deu – João, de Mauro Lima, com Alexandre Nero. Estou impregnado de música. Revista, livro, filme. Histórias de enfrentamento, de resistência, de superação. João deve ser para o ano que vem. Coragem estreia nesta quinta, 17, em diferentes praças brasileiras. São Paulo fica para o mês que vem, dia 8 ou 15. No domingo, João Luiz Sampaio fez uma capa no Caderno 2 que tem tudo a ver com isso. Revolução musical. Como jovens integrantes de projetos sociais estão mudando a face da música clássica. Já era o tema de Tudo o Que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado, que tinha seu valor. Não é só o que a música agrega a esses jovens, mas o que eles agregam à música. Como diz a romena, a música, mesmo erudita, não é elitista. É universal. Pode fazer o crossover de todas as sensibilidades. Estou falando no jovem de Perus, na romena. Eles têm nomes, pelamor de Deus. Felipe de Luna, Diana Ligeti. Fiquei muito tocado com as trocas dos dois.