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Revisita aos clássicos

Luiz Carlos Merten

19 de abril de 2014 | 11h41

Estou aqui querendo viajar nas minhas lembranças, mas sem saber direito para onde ir. A Versátil me enviou seu novo pacote, que inclui duas preciosidades – o DVD de O Colecionador, de William Wyler, e o blu-ray de O Evangelho Segundo São  Mateus, de Pier-Paolo Pasolini. O espectador que hoje assiste ao Evangelho não dá conta do escândalo que o filme provocou na época – nem o espanto. Pasolini, comunista cristianizado, reinventou o Cristo cinematográfico. Hollywood sempre teve tendência a contar sua história como a maior de todos os tempos, e o Vangelo se encaixou entre o Cristo de Nicholas Ray (o Rei dos Reis) e o de George Stevens (A Maior História…). Pouco antes, Wyler também havia feito seu Cristo, mesmo que os protagonistas do filme dele fossem Ben-Hur e Messala. Tudo monumental, hipercolorido – Stevens ousou filmar em Monument Valley, um solo sagrado do western. Acho interessante a dimensão política do Cristo de Ray e me impressionam os olhos azuis de Jeffrey Hunter. Cinema é a melodia do olhar, dizia o autor, e depois de tantos personagens atormentados o Cristo veio pacificar, mesmo que por um momento, o seu cinema. Da mesma forma, considero grandiosa a cena da ressurreição de Lázaro no Cristo de Stevens – dá a impressão de que todo o filme foi feito só por aquilo. Inversamente, o Cristo de Pasolini, em preto e branco e interpretado por Enrique Irazoqui – com a mãe do próprio Pasolini, Susana, como a Virgem Maria; Freud talvez explique -, é o anti-Hollywood. Pequeno, franzino, tenso, ele expulsa os vendilhões do templo com a mesma indignação com que os jovens sairiam às ruas, dali a alguns anos, para tentar mudar o mundo – em Paris, Roma e tantas cidades do mundo, incluindo no Brasil, sob a ditadura. Pasolini filmou em cidades primitivas da Palestina, colheu seus figurantes no bas-fond, há uma estranha mistura de sensualidade e misticismo. E a trilha – Bach, cantos congoleses. Aquilo é um trecho da Missa Luba ou da Missa Criolla de Ariel Ramirez? É a Criolla, que tive o privilégio de ouvir oficiada pelo próprio Ramirez e pelos Chalchaleros em Buenos Aires, com minha ex, a Doris. A Missa Luba integrava a trilha de Se…, de Lindsay Anderson, outro filme cultuado dos anos 1960. Falo um pouco do Vangelo Secondo Matteo, ainda sem ter revisto o filme no blu-ray, mas acho melhor assistir de novo a O Colecionador antes de abordar a obra cult de Wyler. Os dois melhores livros de cinema que li recentemente foram o de Chris Fujiwara sobre Otto Preminger e o de Gabriel Miller sobre William Wyler, The Life and Films of Hollywood’s Most Celebrated Director. Ele conta que Wyler trabalhava sem muita convicção num projeto grande – The Sound of Music/A Noviça Rebelde. O diretor contratou Julie Andrews, foi à Áustria escolher locações, mas não estava satisfeito com o tom do filme. Foi quando chegou às suas mãos o roteiro de O Colecionador, e Wyler imediatamente abandonou A Noviça – sendo substituído por Robert Wise. O romance de John Fowles era considerado infilmável, como também seria considerado assim outro livro do escritor, a seguir – A Mulher do Tenente Francês. Um rapaz que coleciona borboletas sequestra uma garota – a beleza. A narrativa, no livro, é feita em dois blocos, do ponto de vista de cada um deles. Primeiro, o rapaz, depois, o dela, por meio do diário que ele encontra depois que.. Vejam o filme… Exceto o começo e o fim, tudo se passa em interiores, na despensa em que Terence Stamp aprisiona Samantha Eggar. É, talvez, o filme mais hitchcockiano que Alfred Hitchcock não realizou, e não pelo suspense, mas porque remete ao Scottie (James Stewart) de Vertigo/Um Corpo Que Cai e ao Norman Bates de Anthony Perkins em Psicose, ambos obcecados por suas mulheres. Wyler, por sinal, detestava o título francês de O Colecionador – L’Obsedé, que achava que entregava o ouro. Wyler, narrador clássico, detestava tanto as inovações que a nouvelle vague desencadeara na segunda metade dos anos 1950 que incluiu em seus cartões as iniciais A.V., de ancient vague. Mas, em O Colecionador, ele se permitiu, naquele espaço reduzido do set, liberar todos os fricotes visuais praticados pelos jovens franceses. Não sabia que os produtores Jud Kinberg e John  Kohn – o segundo também foi corroteirista com Stanley Mann – fizeram o filme para Terence Stamp, que havia arrebentado com Billy Bud (e no teatro de Londres fazia sucesso como Alfie). O manda-chuva da Columbia, Mike Frankovich, tentou convencer o diretor a contratar Samantha Eggar, mas ele a despediu durante os ensaios. Natalie Wood era sua escolha, mas ela teve problema de agenda e Wyler voltou a Samantha, só que, convencido de que teria problemas com ela, fez o que nunca havia feito antes – exigiu que ela tivesse um coach, permanentemente a seu lado, no set. A escolha não poderia ter sido mais surpreendente – para mim. Foi uma coach, Kathleen Freeman, que fazia as comédias de Jerry Lewis. No final, Stamp e Samantha fizeram história como os primeiros a ganhar os prêmios de melhor ator e atriz pelo mesmo filme, em Cannes – anos mais tarde, Isabelle Huppert e Benoit Magimel repetiriam o feito em A Professora de Piano, de Michael Haneke. Terence Stamp filmou na sequência com Federico Fellini e Pasolini, o que consolidou seu mito. Samantha meio que se perdeu em papeis menores. Pelo tema, pela densidade da relação entre os protagonistas, Wyler queria fazer O Colecionador em preto e branco, mas o diretor de fotografia Robert Surtees o convenceu a filmar em cores ao exibir um teste que havia feito com Samantha, captando o dourado de seus cabelos ruivos. É sempre fascinante descobrir como as circunstâncias interferem e participam da criação de obras que se tornam míticas.

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