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Retorno das Cinzas

Luiz Carlos Merten

07 Julho 2015 | 00h22

Minha entrevista de hoje por telefone foi com Christian Petzold, diretor de Phoenix, com Nina Hoss, que estreia quinta-feira. É o sexto filme que a atriz e o diretor fazem juntos, e o anterior foi Bárbara. Gostei mais do anterior, mas o novo é bem interessante e eu gostei mais ainda de falar com Petzold. Phoenix baseia-se num livro de Hubert Monteilhet, que já havia sido adaptado por J. Lee Thompson nos anos 1960. Chama(va)-se Return from the Ashes/De Volta das Cinzas, e tem alguma similaridade com Vertigo/Um Corpo Que Cai, que Alfred Hitchcock adaptou da dupla, também francesa, Boileau/Narcejac. D’Entre les Morts, De Entre os Mortos. De Volta das Cinzas. Não vi o filme antigo, mas lembrava-me de que era com Samantha Eggar e Maximilian Schell. No fim da 2.ª Guerra, Nina Hoss é resgatada do campo de concentração. Está com o rosto desfigurado, faz uma plástica. Vira outra mulher e vai atrás do marido, que acha que a delatou aos nazistas. Ele não a reconhece – não mesmo? -, mas percebe certa semelhança que propõe a ela aprofundar, para que ambos lucrem – vejam para saber o quê, ou como. Nina presta-se à manipulação do ex-marido, que tenta retirar, da persona que ela criou, a mulher que é, ou foi. Vertigo é sobre o desejo masculino, sobre James Stewart que recria Madeleine em Judy e descobre que Kim Novak era as duas. Tive uma sensação curiosa. Embora Phoenix seja o filme mais estilizado que vi de Petzold, um noir muito bem fotografado, tive uma impressão que comuniquei ao diretor. Ele reconta Vertigo do ângulo de Judy (Kim Novak), não de Scottie (James Stewart). Petzold me disse uma coisa que me surpreendeu. O filme dele também era sobre o desejo masculino, mas aí, lá pelos dois terços da filmagem, Nina, uma atriz inteligentíssima, se rebelou e assumiu o controle. Inverteu o jogo e manipulou Petzold. Tornou-se a diretora de fato, só pela maneiras de se comportar em cena. E ele, o que fez?³ Assistiu a tudo fascinado. Havia achado Phoenix intrigante, até fascinante, mas agora fiquei com vontade de rever. Embora tenha toda essa representação estilística, ‘hitchcockiana’ – noirish, como se diz -, o filme é muito alemão, porque carrega, no personagem do marido, os temas da responsabilidade e da culpa perante o nazismo. Há um complexo jogo de espelhos. Se Petzold retoma o noir, Hollywood criou o formato, o estilo, justamente incorporando fugitivos do nazismo que levaram para os estúdios o clima sombrio e o claro-escuro do expressionismo alemão. Insisto. Será preciso rever Phoenix, e no caso de vocês, ver.