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Retificando

Luiz Carlos Merten

24 de dezembro de 2013 | 11h23

Às vezes me arrependo de dar essas patadas, e não que os atingidos não mereçam. Vou mudar o tom. De volta à sexta, à reunião na casa de Margarida Oliveira… Lá estava Renata Almeida, cujo nome omiti no post anterior. Não quero que fique registrado como se tivesse me esquecido dela. Aconteceu o seguinte. Havia colocado, depois do nome da Renata, um aposto que achei inconveniente. Ao cortar o aposto, cortei junto o nome. Antes que vocês pensem em alguma coisa agressiva… Não, pelo contrário. Achei a Renata bonita como nunca, e relaxada, sorridente. As atribulações da Mostra passaram, só vão recomeçar mais adiante. E a vida está voltando para ela. Foi essa a observação que achei um tanto imprópria, mas que agora me parece verdadeira, e até inocente. É curioso como se passam as coisas na cabeça da gente. Roseli Tardelli vive dizendo que, por maior que seja o buraco, um dia a gente sai. A vida vem. Gosto muito dessa frase. É um dos meus credos – a vida vem. Lembrei-me agora de Helena de Lima, que canta em meus ouvidos. Helena quem? ‘Vê/Estão voltando as flores/Vê, nesta manhã tão linda/Vê, o sol iluminando/Por onde nós vamos indo…’ Já que fiz não propriamente uma retificação, mas vou chamar assim o post, vou fazer duas. Nos textos de hoje do Caderno 2, as entrevistas com Matheus Souza e Clarice Falcão, direcionei a matéria para uma coisa que Clarice disse e está no filme, sobre a importância da família. Mas ela também disse, e isso omiti,  e agora me parece mais importante ainda. Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Tô Fazendo da Minha Vida foi feito há dois anos. O segundo filme do Matheus, o primeiro dela e de um monte de gente da equipe. Um filme de aprendizado, de vida e de cinema, feito por uma galera que estava se descobrindo, e descobrindo a linguagem. Voltei ontem ao Frei Caneca para ver o Artigas de César Charlone. Pouca gente continua indo ver o Não Faço a Menor Ideia. Tudo bem, a época não favorece. Só doido como eu de ir ao cinema na véspera do Natal, mas seria bom se os jovens fossem. Não hoje, que nem vai ter à tarde. Talvez amanhã ou depois, mas logo, porque senão o filme sai. É de vocês, é de quem está aprendendo. É nosso, porque eu, aos 68, espero não perder nunca essa consciência de que, na vida, nunca é tarde para aprender. E vou dizer uma coisa para quem acha que não precisa ir ao cinema, que pode baixar o filme, qualquer filme, na internet. Acho que, no fundo, essa é a maior mudança que as novas tecnologias trouxeram, e não é uma boa. Uma mudança que, mais que comportamental, é de percepção. Tudo bem que tem esse lance da democratização, mas quando o jovem, ou o adulto, não importa,  no cinema, fica dividindo o olho entre a tela e o celular, para conferir mensagens etc, ele (ou ela) não está só interferindo no vizinho. Está relegando o cinema a um sistema de informação, a uma história. Dá para acompanhar, para entender, mas não fruir. O que faz do cinema uma arte é essa possibilidade de fruição que ele oferece, e muita gente está perdendo. No filme de Lina Chamie que estreia sexta, São Silvestre, não há uma história, ou melhor… Você vai ficar vendo os corredores e a cidade. Há muita informação naquilo, vai depender do seu olhar, mas o que faz a riqueza de São Silvestre, o filme, é o diálogo entre a imagem e o som. E, para isso, você precisa se entregar. Deixar fluir. Acho que isso está virando meu post natalino. Que neste Natal, neste fim de ano e no próximo, todos nós nos dediquemos a fruir mais. O cinema, a vida.

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