As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ressurreição de Brooks

Luiz Carlos Merten

27 de dezembro de 2013 | 11h21

Comprei no outro dia na banca da Paulista – a do Conjunto Nacional – a Cahiers de outubro, com Adèle Axerchopoulos e Léa Seydoux na capa. Kechiche en question. Azul É a Cor Mais Quente, La Vie d’Adèle Volumes 1 et 2, para eles. Entrevistas com o diretor, com seu chef-operateur (Sofian El Fani) e suas atrizes. Tudo muito interessante, mas nada que eu próprio não tivesse conversado com o autor e com Adèle, um pouco com Léa. O de que mais gostei foi de um texto de Joachim Lepastier, que não faço ideia quem seja. Exhibitions. Au coeur de la mise-en-scène de Abdellatiof Kechiche, la mise en spectacle du corps féminin. Foi o que falei a Kechiche, quando ele insistiu naquela coisa de história de amor, independentemente de gênero. O que lhe interessa é o espetáculo do corpo feminino, ele reagiu dizendo que não, que vai fazer La Vie d’Adèle Volumes 3 et 4 por causa de uma cena de pegação de dois homens (e uma mulher). Disse que duvidava. Apostamos (um café). Lepastier disseca justamente isso – no centro da mise-en-scène de Kechiche está o espetáculo do corpo feminino. Voyeurismo puro. Ele me confessou que, apesar da interdição do Corão, vê filme pornô, como todo mundo. Seu próximo filme, antes de Adèle 3 e 4, será um documentário sobre Marilyn Chambers, a estrela que quebrou um tabu ao fazer sexo com um negro diante da câmera. Em Cahier Critique, o primeiro filme analisado é A Filha de Ninguém, de Hong Sang-soo, que lá se chama Haewon et les Hommes. Meu filme ‘nouvelle vague do ano’. Na sequência, rasgados elogios a Gravity, de Alfonso Cuarón, outro dos meus cinco mais de 2013 (com Azul e a lista que saiu ontem, no Caderno 2). Tudo bem interessante, mas confesso que encheu minha alma, nos lançamentos de DVDs, os elogios a dois filmes de diretores que amo, George Cukor e Richard Brooks. Os elogios a Ricas e Famosas, com Candice Bergen e Jacqueline Bisset, seguem a tônica da acolhida que a comédia teve na época, 1981. À Procura de Mr. Goodbar, de 1977, pelo contrário, nunca desfrutou de muito boa reputação, embora Brooks dissesse que Diane Keaton não era punida por gostar de bares ou ir a bares de solteiros para ‘caçar’, mas morria porque a sociedade estava evoluindo para uma selva onde não há mais justiça. Sempre gostei demais de Brooks, que dirigiu filmes que fazem parte do meu imaginário (Gata em Texto de Zinco Quente, Lord Jim, Os Profissionais), mas há 36 anos, no auge da afirmação feminista, era suicida segurar sua onda. O diretor foi acusado de moralismo ao mexer em dois vespeiros – não apenas sua mulher liberada era morta a facadas como o assassino era um homossexual. O horror, o horror. Li só o título da matéria de Cahiers e me bastou. New York Inferno. O elo perdido entre Taxi Driver e Perdidos na Noite/Cruising. A definição de que se trata de um filme noir alucinado me basta. Adoraria rever Mr. Goodbar.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: