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Resnais!

Luiz Carlos Merten

02 de março de 2014 | 13h17

Passei ontem o dia resolvendo problemas – novo par de óculos, na fila para comprar ingressos para o sambódromo – e também assistindo a filmes do Festival do Cinema Equatoriano, no Olido. É o lugar para quem quiser se esconder da crítica paulistana. He-he. Não aparece ninguém. Vi ontem um filme muito bom – A Que Distância?/Qué tán Lejos, mas nesta altura não vou falar de equatorianos nem do desfile da Gaviões. Estou na redação do Estado porque vim fazer umas matérias de DVD para a edição de amanhã do Caderno 2. À noite volto para a cobertura do Oscar. Tudo isso agora vai ter de mudar. Cá estou e meu amigo Dib Carneiro conseguiu me localizar para me dar a notícia – morreu Alain Resnais. Como? No recente Festival de Berlim, o novo longa do diretor ganhou o prêmio da crítica, Amar Beber Cantar, o que achei exagerado, mas havia feito uma bela entrevista com Sabine Azéma. Admito que, sobre certas coisas, sou muito mal informado. Não sabia que eram casados. Achava que era só uma afinidade artística o fato de ela estar sempre no elenco dele, com André Dussolier, Pierre Arditi etc. Resnais, com 91 anos, não pode ir ao festival, mas ninguém parecia muito preocupado com seu estado de saúde, nem Sabine. Ela me disse que ele já trabalhava no próximo projeto – que agora não vai sair. Que pena! Comentei que Resnais, nonagenário, cada vez mais se ocupava da morte, mas o fazia com leveza, não com angústia. Os filmes são leves – Amar Beber Cantar, um credo de vida – e até comentei como, nos anos 1950, ele era mais grave e até sombrio. Nuit et Brouillard, Hiroshima, Meu Amor… Era a fase anterior a Sabine. Perguntei à assessora desde quando eram casados. Ela me respondeu – ‘Mais, bon, depuis toujours, je pense.’ Ou seja – desde sempre, o que significa que faz muito tempo. Observei para Sabine que talvez tenha sido ela que trouxe essa leveza para a vida (e a arte) do marido. Ela me olhou de uma forma tão intensa. Confessou – ‘É o que quero acreditar.’ Resnais realizou grandes filmes – os dois citados e também A Guerra Acabou, Providence, Meu Tio da América e Mélo, os meus favoritos. Numa época em que se consagra tanto a autoria, ele sempre trabalhou com escritores e tinha a modéstia de fazer escrever, nos créditos do último filme, que é ‘realizé par…’ Realizado por… Na verdade, pela perfeição de sua montagem e pelos recuos no tempo e no espaço, Resnais criou uma autoria única. Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, diz que ele ‘lê’ os roteiristas com quem trabalha (Duras, Robbe Grillet, Cayrol, Semprun, David Mercer…). Cita Bachelard (o Tulard) – ‘Depois da leitura, começa a obra de leitura.’ Sabine disse que Resnais tinha uma câmera na cabeça. Já filmava pensando na montagem. Sobrava pouquíssima coisa, quase nada na edição. Sandrine Kiberlain, que também está no filme, disse outra coisa legal – que Resnais amava as mulheres. Sabia fazer com que suas atrizes se sentissem belas, desejadas. Ela estava feliz por ter sido admitida na família Resnais. Dommage que não tenha tido tempo de ir para o próximo filme.

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