As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Resgate de Bolognini

Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2014 | 10h43

Cheguei! Depois de intermináveis horas de aeroporto – em Paris, Londres e até São Paulo, ao voltar, nessa madrugada. Estou em casa, aproveitando para postar, mas daqui a pouco saio para fazer minhas entrevistas no quadro da Comic-con Experience, com Richard Armitage, o Thorin da saga do Hobbit, e Don Hall, diretor de Big Hero. Li muito. Rencontres avec Jean-Marie Straub e Danièle Huillet é uma compilação de debates, entrevistas e reflexões do casal. Sempre gostei muito das histórias que Bernardo Vorobow e Carlos Adriano me contavam da dupla Straub/Huillet na intimidade, em Roma, numa casa cheia de cachorros. Li trechos sobre A Crônica de Ana Madalena Bach, Sicília!, A Morte de Empédocle e Moïse et Aaron. Quanta erudição! E me encanta a busca pelo gesto preciso, pela inflexão exata. Durante a Semana dos Realizadores, no Rio, o debate dos diretores/montadores evocou uma velha rixa – não propriamente rixa, mas uma saudável polêmica – sobre a importância de um fotograma (a mais ou a menos) na construção do ritmo de uma sequência de seus filmes. Até pensei em dar o livro para Paula Gaitán, que levantou a questão, se é o que ela já não o tem (o volume). Mas confesso que prazer mesmo tive lendo o dossiê na Positoif de dezembro, dedicado à idade de ouro do melodrama italiano. Entrevistas com Marco Tulio Giordana e Vittorio Cottafavi (uma velha entrevista dele) e um ensaio de Jean A. Gili, revisitando os grandes do melô italiano. Descubro os números fantásticos dos filmes de Raffaello Matarazzo, que construiu toda uma obra em torno da dupla Amedeo Nazzari/Yvonne Sanson. Catene, A Mentira de Uma Mãe, 8,35 milhões de espectadores, Tormento, 7,75 milhões, Verdi, 7,9 milhões e I Figli di Nessunoi, seu recordista, com 9,2 milhões. Como é impossível falar de melodrama na Itália sem Luchino Visconti, o dossiê já começa com a suntuosa ilustração de Allida Valli como LIvia Serpieri em Senso/A Seduçã0 da Carne. Mas nada me agradou tanto como descobrir, agregado ao dossiê, o texto sobre o resgate em DVD de La Viaccia. Quem me lê aqui no blog e até no jornal sabe da minha defesa de Mauro Bolognini. Nos anos 1960, ele era considerado, por seus melodramas, o Visconti dos pobres e a poderosa vertente social de O Belo Antônio, A Longa Noite de Loucuras e Um Dia de Enlouquecer era atribuída aos roteiros de Pier-Paolo Pasolini. La Viaccia é saudado como é, um dos grandes filmes italianos dos anos 1960 e Bolognini finalmente colocado no panteão em que merece estar. La Viaccia, rebatizado como Le Mauvais Chemin na França – no Brasil é Caminho Amargo -, deve reestrear também nos cinemas e, na semana que vem, dia 9, gostaria de estar no Grand Action para o debate que Positif organiza sobre o filme. Amerigho perde-se por amor de Bianca, a mais bela p… de Florença, mas o caminho amargo, no filme, não é o da prostituição. La Viaccia é o nome da propriedade que dois irmãos disputam. Um deles é o ator (e diretor) Pietro Germi e o conflito familiar envolve os jovens, interpretados por Jean-Paul Belmondo e Claudia Cardinale. La Viaccia desenvolve-se num clima de filme noir, com uma equipe de feras na recriação visual de Florença no fim do século 19. Fotografia de Leonida Barboni, direção de arte de Flavio Mogherini, figurinos de Piero Tosi. Sempre achei o filme belíssimo. Imagens permanecem no meu imaginário e tenho de confessar que, quando vou ao Sujinho, e vou com frequência, tem uma foto ampliada de São Paulo antiga, uma imagem cinzenta, granulada, que toda vez me faz lembrar da Florença de Bolognini. Por isso mesmo, me surpreende o que dizia o próprio diretor, morto em 2001. Citado por Positif, ele conta que realizou o filme na urgência, sem tempo de parar para fazer um plano bonito. A citação exata é – “Coloco os atores na rua e, com a câmera na mão, vou em frente. Filmo La Viaccia exatamente como filmei La Notte Brava/A Longa Noite de Loucuras.” A Versátil bem poderia lançar Caminho Amargo em DVD. E por que não trazer o filme para os cinemas? É um sonho de, particularmente, gostaria de ver realizado.