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Requiescant, Cimino

Luiz Carlos Merten

03 Julho 2016 | 10h28

No começo dos anos 1960, uma série de problemas elevou os custos e transformou Cleópatra, o épico romântico (e crítico) sobre a rainha do Nilo, com Elizabeth Taylor, no filme mais caro até então produzido por Hollywood. Lançado, Cleópatra não cobriu o gasto. Joseph L. Mankiewicz, por um momento, a despeito de seus Oscars (e grandes filmes), esteve ameaçado de passar à história como o homem que levou a empresa Fox à bancarrota. Salvou-o o megassucesso de A Noviça Rebelde, de Robert Wise, com Julie Andrews (e logo a dupla de ouro também fracassaria com A Estrela, mas essa é outra história). Michael Cimino não teve a sorte de Mankiewicz e não foi salvo pelo gongo. Carregou sempre a marca – o carma – de haver destruído a United Artists, empresa fundada por Charles Chaplin, Mary Pickford, Douglas Fairbanks e David W. Griffith, e que se destacara por um perfil particular, entre os grandes estúdios de Hollywood. Michael Cimino! O anúncio de sua morte – ontem, sábado, 2 de julho – foi feito por Thierry Frémaux, delegado-geral do Festival de Cannes, em sua conta do Twitter ou do Face, sei lá. Frémaux disse que Cimino morreu pacificamente – como Bud Spencer, segundo o relato do filho -, cercado pelo amor de suas duas mulheres, a esposa e a enteada. E Thierry, como um poeta, acrescentou – “Nous l’aimions aussi”, Nós também o amávamos. Há controvérsia quanto à sua idade. Oficialmente estava com 77 anos, mas podia ter mais. Cimino estreou há mais de 40 anos – em 1974 -, com um filme rapidamente esquecido, apesar de Clint Eastwood (e Jeff Bridges), o policial meio cômico O Último Golpe, Thunderbolt and Lightfoot. Quatro anos depois foi o choque de O Franco-Atirador, The Deer Hunter. A ‘América’ antes, durante e depois do Vietnã. A vida de um grupo de amigos, metalúrgicos na Pensilvânia. Trabalham, enchem a cara, caçam veados (os animais). Partem para a guerra para dar uma lição naqueles vietnamitas, como seus antepassados haviam dado nos índios. Voltam derrotados, fodidos. Melancolicamente, cantam uma canção sobre a grandeza dessa América na qual não se reconhecem mais. O Franco-Atirador venceu o Oscar – filme, direção, ator coadjuvante (Christopher Walken), montagem e edição de som. Perdeu prêmios importantes (ator, atriz, roteiro) para outro filme sobre o Vietnã, Amargo Regresso, de Hal Ashby, com Jon Voight e Jane Fonda. Mas Cimino virou um nome quente, talvez ‘o’nome quente da época. Hollywood não lhe negaria nada, e o ‘gênio’ embarcou na viagem de O Portal do Paraíso, que, para ele, foi o do inferno. Depois de olhar os EUA de forma tão crítica no Sudeste Asiático, Cimino foi à História e quis ser mais crítico ainda. A conquista do Oeste como nunca se havia visto. O anti-western. A construção das ferrovias, o massacre dos índios mas também dos imigrantes, a concentração de terras e do gado nas mãos de minorias, os latifúndios. Os custos estouraram, como em Cleópatra. Lançado em 1980, o filme foi um fracasso – o público, no pós-Vietnã, não quis saber de tanta crítica. Teria sobrado o mercado externo, mas Heaven’s Gate foi fracassando, sucessivamente, em todos os mercados. Só com o tempo adquiriu a reputação de obra cult. Seu efeito em Hollywood foi devastador. A UA quebrou, os executivos consolidaram seu poder – viram no que dá tanta liberdade para os artistas? Menos realidade, mais fantasia. A carreira de Cimino foi truncada. Quando ele voltou, o olhar sobre sua obra era de desconfiança. O Ano do Dragão foi comparado a Chinatown, e naturalmente não era tão bom. O Siciliano seria um Bandido Giuliano atropelado por um fiel seguidor de Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão). Horas de Desespero foi um equívoco, posto que nem o original de William Wyler era grande – por que refazê-lo? Fomos poucos os que gostamos de The Sunchaser, Na Trilha do Sol. Um índio jovem é preso por matar o padrasto abusivo. Ele próprio está morrendo de câncer. Jon Seda é quem faz o papel. Sequestra o médico Woody Harrelson e, perseguidos pela polícia, partem para uma montanha sagrada dos navajos. O garoto quer apenas se purificar no ritual do sol, para morrer como o guerreiro que não é mais nem nunca foi. Tudo, naquele filme de 1996, tinha a ver com a carreira do próprio Cimino. Há 20 anos! Thierry Frémaux e Gilles Jacob o veneravam. Inventavam atividades, convites para o cineasta no maior festival do mundo. Tenho de acrescentar que algo se passou com ele no foro íntimo, não sei o quê. Numa época, e influenciado pelo exemplo de Larry/Lana Wachowski, cheguei a pensar que Cimino estava mudando de sexo. Ele foi encolhendo e virando cada vez mais ‘senhôra’. Escondia-se por trás de enormes óculos escuros. Não era isso. Hoje, tenho a impressão de que o que houve foi algum botox mal-aplicado. Cimino não virou Donatella Versace, mas, se você comparar fotos antigas com recentes, a diferença é brutal. Muitos anos depois, Cimino deu uma entrevista a The Hollywood Reporter. Disse que sua vida havia sido destruída por O Portal do Paraíso. Que havia sido descartado. “I’m blown away.” Mas que naquele momento, estava em paz consigo mesmo, como seu jovem índio. Conseguia rever O Portal do Paraíso, e rever de novo, e gostava do que via. Tem um baile no filme que é uma das coisas mais grandiosas que vi no cinema. Uma coisa de um perfeccionismo viscontiano. O Portal estava adiante de sua época. E foi esse o preço que Cimino pagou.