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Repare bem

Luiz Carlos Merten

14 de agosto de 2013 | 10h53

GRAMADO – estou, e de uma forma muito pessoal, me sentindo mareado hoje pela manhã. Por motivos que não importa elucidar, minha filha, a Lúcia, foi morar comigo e levou a cachorra, a Angel, a quem me refiro volta e meia como minha ‘neta’. Tenho corrido muito por aqui e falado pouco com Sampa, mas hoje, ao telefonar para a Lúcia, descobri que ela finalmente se mudou e, claro, levou a ‘neta’. Vou volta para uma casa vazia, e isso me deu uma sensação estranha. Gosto de morar só e tive de me reacostumar a dividir o espaço. Vou ter agora de aprender de novo a ser só. Não, não tenham peninha de mim. Eu gosto e com a Lúcia vou continuar conversando, saindo. Já estava acostumado era com a buldogue. Quando me sentava para ver algum filme na TV paga, ou DVD, ela colocava a cabeça no meu colo e, como toda buldogue, era babona. Eu reclamava, mas, no fundo, gostava. O curioso é que ontem, quando via as imagens da casa vazia no filme sobre Caio F., Sobre Sete Ondas Espumantes, a Lúcia devia estar se mudando, ou recém se mudado. Será que foi a premonição que me deu aquele dilaceramento, ou o Clair de Lune? Estou de volta à sala de imprensa. Daqui a pouco começam os debates do dia. Os curtas e os longas, Repare Bem, da Maria de Medeiros, e A Bruta Flor do Querer, de Andradina Azevedo e Dida Andrade. Houve ontem a homenagem que eu pensava que era a Lima Duarte, mas foi ao filme Sargento Getúlio, o que, obviamente, incluía o diretor Hermano Penna. 30 anos na noite passada! Hermano lembrou o filme que o colocou no mapa do cinema brasileiro e mundial. Lima falou de sua entrega, da paixão com que viveu o personagem desmesurado. Já contei aqui no blog que, durante muito tempo, tive uma bronca, aparentemente infundada, do Lima, mas ao conversar com ele no ano passado ficou claro que era por ele ter interpretado tão bem o personagem criado por João Ubaldo. E eu amo o Lima de A Busca. Aqueles dez minutos finais dele justificam, para mim, todas as homenagens que possa receber. Revi ontem pela segunda vez, o que significa que vi três vezes já, o documentário Repare Bem, que Maria de Medeiros fez a pedido da comissão de Justiça e Reparação, sobre a ex-guerrilheira Denise Crispim. Tenho minhas restrições ao belo e pungente filme de Maria. Acho- muitas vezes tosco, senão sempre, mas ontem, depois de ver e ouvir o emocionado depoimento de Denise frente às câmeras me perguntei se essa aparente ausência de mise-en-scène não será as suprema mise-en-scène. Só o que importa ali, afinal, é a oralidade, o depoimento, a história de uma vida, ou de três. Denise, seu companheiro na guerrilha, o Bacuri, barbaramente assassinado pela repressão, e a filha de ambos, criada na Itália. Pela terceira vez, experimentei o mesmo… Sentimento? Denise fala do ex-companheiro. Como Bacuri era belo, com seus olhos claros! Ninguém, claro, consegue saber como as coisas se passam na cabeça dos outros, na minha cabeça, mas lembrei-me da abertura de A Volta de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, que começa no convés de um navio e uma mulher, olhando Lorde Greystoke – não sabemos que será a vilã da história -, diz exatamente isso. ‘Como ele é belo!’ Ela vai tentar seduzi-lo e, ao não conseguir, tenta matá-lo. Denise e Bacuri sofreram todo o horror dos porões da ditadura. Ele foi morto, ela sobreviveu (com culpa). E chegou o momento doloroso. A vida veio, e Denise precisou dizer adeus ao passado, amar de novo. O discurso dessa mulher não se refere só ao que sofreu durante a repressão. É sobre o arco da experiência humana, e feminina. O amor, a maternidade, a morte – a vida. Maria do Rosário Caetano me disse que a jovem crítica, seja lá o que isso significa, foi contra o filme por achar que o desfecho é chapa-branca. A filha de Denise e Bacuri presta seu depoimento à Comissão e o presidente da mesa levanta e lhe pede desculpas em nome do governo e do povo brasileiros. Lembro-me agora de outra coisa. Richard Brooks filmava Gata em Teto de Zinco Quente quando houve o acidente de avião que matou o produtor Michael Todd, marido de sua estrela, Elizabeth Taylor. Ele quis parar a produção. Afinal, como disse, ‘é apenas um filme’. Liz insistiu, voltou ao set e o filme é uma das obras do meu coração (e mente). Apenas um filme. Repare Bem não é apenas um documentário, mas é. O que importa mais – a vida, efêmera, ou a arte, que a eterniza? O importante, o necessário é aquele pedido de desculpas. Já me pergunto quando vou ver Repare Bem pela quarta vez. Nos cinemas? Breve?

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