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Relato selvagem

Luiz Carlos Merten

22 de novembro de 2014 | 10h43

RIO – De novo, e apesar da procedência, meu assunto será São Paulo. Arrastei meu amigo Dib Carneiro domingo passado para ver Relatos Selvagens no Espaço Frei Caneca. Já comentei que a comédia de Damián Szifron está sendo um grande sucesso também no Brasil, mas seu circuito encolhe, com o do cinema brasileiro, para abrigar blockbusters como Jogos Vorazes A Esperança Parte 1. Sentamos na fila D, poltronas 1 e 2. A sala era a 6, acho, na parte de cima. O filme já estava começando quando entraram os ocupantes das poltronas 3 e 4. Adoraria muito se a vaca (sorry) que sentou na poltrona 3 lesse esse post. Vivemos naquela noite o verdadeiro relato selvagem – e o episódio que faltou no filme de Damián. A mulher entrou com pipoca e refrigerante. Comia feito uma porca – nunca vi pipoca fazer tanto barulho na boca de alguém e ela sugava o canudinho com uma fúria que me levou a fantasiar se a ‘moça’ fazia tudo daquele jeito. Para completar, ela não parava de falar com o acompanhante e entre uma atividade e outra – uma pipoca, uma chupada no canudo e um comentário inconveniente -, conferia o celular. Desesperado, Dib descobriu outro lugar e se mandou, não sem antes dizer que esperava nunca mais sentar-se ao lado dela. A dona não se intimidou e bateu boca – ‘Vai mesmo, eu é que não quero sentar do seu lado.’ E seguiu falando, dizendo que se o que se passava na tela fosse com ela matava (o ocupante do carro) e corneava (o recém marido adúltero). É ou não é um relato selvagem? Claro que não é todo mundo, mas é impressionante como muitas pessoas estão perdendo a noção – e o limite – da civilidade. Ando pasmo com essas coisas. Não tem nada a ver, mas tem tudo. A mulher que resistia ao coro de black blocs no curta que vi ontem na Semana dos Realizadores talvez estivesse só um pouco mais acuada que a gente na plateia do cinema. O horror, o horror.