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Reese nota 10

Luiz Carlos Merten

06 Janeiro 2015 | 09h12

Pode até ser que Reese Whiterspoon não ganhe o Oscar por Livre/Wild, mas ela certamente merece o Oscar da Academia, muito mais do que quando o empalmou por Johnny e June. Vi ontem Wild na cabine de imprensa, que estava cheia. Confesso que cheguei com certa má vontade. Nem sabia quem era o diretor, outro filme de experiências na vida selvagem, depois daquele de Sean Penn, In the Wilderness, que não me convenceu nem um pouco. O começo também não me animou. De cara, encontramos Reese num momento limite de sua personagem, em meio à tarefa que se impôs – mil quilômetros de caminhada numa trilha íngreme, selvagem. Mas aí o filme vai desenrolando o fio da personagem. A ligação com a mãe, com o ex-marido, com o irmão. Só no final descobri que Jean-Marc Vallée é o diretor. Canadense, autor de Clube de Compras Dallas e C.R.A.Z.Y., ele tem uma visão muito interessante do sofrimento humano. Há um poema, acho que de William Blake, que Charles Morgan usa como epígrafe de A Fonte, um livro que li quando jovem e que me marcou muito. Tem uma parte maravilhosa. Daria um filme lindo, O Elo. Uma mulher casada acolhe em casa um amigo do marido. Tornam-se amantes, e se encontram através de uma passagem no castelo que ela habita. Morgan era um autor filosófico, contemplativo. Mais que o sexo, importam-lhe os sentimentos, as implicações morais do adultério. Li o livro nos anos 1960, quando o sexo, a minissaia, os Beatles, tudo contribuía para as mudanças que ocorriam no mundo. Tudo implodia e eu me atolava nos conceitos aristotélicos, platônicos que regiam a visão de Morgan. A frase, que ficou como música no meu ouvido – ‘Tu não pecas senão para te submeter a uma nova purificação.’ Vallée não é um moralista hollywoodiano tradicional. Reese não se arrepende do que faz no filme. Sua mãe, Laura Dern, também não. A personagem de Reese reflete que gostou de ter feito sexo com todos aqueles homens, que curtiu suas experiências com drogas pesadas. E só ao se conscientizar disso, sem culpa, ela consegue sentir prazer de novo e se libertar do ex, a quem continuava presa. Lembrei-me – por linhas tortas – de Walter Hugo Khouri e seu personagem Marcelo. A ascese, para ele, só vem pela degradação do físico – e da alma. Se Reese ganhar, Vallée vai virar o diretor preferido dos atores e atrizes. Matthew McConaughey já ganhou seu Oscar por Clube de Compras. Fui procurar e descobri que Vallée finaliza Demolition, talvez para o Oscar que vem. Jake Gyllenhaal faz um financista que implode emocionalmente, após a morte da mulher. Sem norte nem bússola em sua vida, ele precisa ir ao fundo do poço. Demole-se. Imola-se. E o que me pareceu uma facilidade no começo de Wild depois me conquistou. Numa trilha maravilhosa, Vallée usa El Condor Pasa. Fui ao nirvana.