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Reencontro de Dora e Josué e #EleNão: emoção e política na festa da Academia Brasileira de Cinema

Luiz Carlos Merten

20 Setembro 2018 | 09h35

Fui ao Rio para a premiação da Academia Brasileira de Cinema. O prêmio Grande Otelo tem quase 20 anos. Cris Rio Branco, sempre atenciosa, convenceu-me que era um absurdo todo esse tempo e eu nunca ter ido. Diverti-me à larga. Como ser solteiro no Rio. Encontrei muita gente simpática, querida. No palco, toda a festa foi uma longa preparação para o reencontro entre Dora e Josué, Fernanda Montenegro e Vinicius de Oliveira, agora um homem. Fernanda foi homenageada por sua carreira. Quase 90 anos. Foi o penúltimo prêmio da noite, depois só o de melhor filme. Apareceram no telão as imagens de Central do Brasil. Dora despede-se de Josué. Deixa-lhe a carta e a foto, para não ser esquecida. Na tela, Josué menino olha a foto. No palco da Cidade das Artes, Vinicius, adulto, olha a foto e saúda Dora/Fernanda. A festa de Fernanda foi a de Vinicius. Ela contou a história dele. Como o menino engraxate conquistou o coração do diretor Walter Salles, e o papel. Odeurs fanés, que reste-t-il de nos rêves? Subiram ao palco para entregar o prêmio especial para Fernanda Zelito Viana, Cacá Diegues e Luiz Carlos Barreto. Zelito e Cacá discursaram, falaram bonito. Barretão, sucinto. ‘Ajoelho-me, e calo.’ Ajoelhou-se. A festa teve dessas coisas. Foi emocionante. Foi política – 29 categorias, 29 discursos em defesa da #EleNão. O repúdio à candidatura de Jair Bolsonaro deu o tom. Charles Fricks e Laila Garin foram os apresentadores. Ele criou um personagem fictício – Nelson, em homenagem a Nelson Pereira dos Santos. O pai desse Nelson tinha um cinema drive-in, e as imagens de O Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho, costuraram a cerimônia. Tudo ótimo. Já os prêmios… Bingo, o Rei das Manhãs, de Daniel Rezende, concorria em 15 categorias, levou oito prêmios, muito mais do que merecia – os de atores, para Vladimir Brichta e Augusto Madeira. A Glória e a Graça, de Flávio Tambellini, com dez indicações, levou três – que não merecia. Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, também com dez, levou duas, melhor atriz, para Maria Ribeiro, e melhor direção. E o Boi Neon? Necas. Divinas Divas, de Leandra Leal, venceu como melhor documentário. Três das diovas morreram. Mais um pouco e não haveria filme. Presidente da Academia, sucedendo a Roberto Farias, Jorge Peregrino prometeu fazer força para que a premiação do ano que vem ocorra no primeiro semestre de 2019. Em setembro, realmente, não dá.