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Rebeldes do futebol

Luiz Carlos Merten

01 Janeiro 2013 | 09h53

Meu primeiro post do ano. Um grande 2013 para todos nós, com grandes filmes. Há um ano, fomos, Dib Carneiro e eu, ao enterro de Daniel Piza. O tempo passa, o tempo voa. Mais um ano, menos um ano (segundo Mário Peixoto). Minha caixa estava travada há dias, com mais de 1800 e-mails.;. Deletei de vez e, no meu lixo eletrônico, apareceram alguns comentários à espera de validação, incluindo um de Marcelo Magalhães em que ele se despede e diz que está desertando do blog. Diz que os post são ensaísticos, que estou virando um intelectual tupiniquim enfadonho. Vai ser feliz em outro blog, Marcelo. Sem rancor. Mas só para pegar a deixa – ensaístico, eu? Na Academia, tenho certeza de que a ideia não é esta, e uma garotada que queria me transformar em objeto de estudo foi demovida por seu orientador. O garoto me ligou, cheio de dedos, para dizer que o grupo fora forçado a mudar a disertação. Fazer o quê?, como diria meu amigo Luiz Raimundo Vaz – este, tirei do baú. O post vai ser sobre cinema e futebol. É curioso como certas coisas ocorrem comigo. Nos últimos dias, do nada, comentei com algumas pessoas que havia entrevistado somente três jogadores na minha vida, e isso apesar de ter sido copydesque de esporte em ‘Zero Hora’. Mas olhem o trio – Pelé, Maradona e Eric Cantona. Na verdade, gostaria de que tivessem sido quatro – Zidane, cujo documentário (sobre ele) é uma extraordinária experiência audiovisual. Edson Arantes do Nascimento fala de si mesmo na terceira pessoa. Ele – Pelé. Maradona é provocador até os poros, e divertido. Cantona me impressionmou pela firmeza do olhar e das convicções. Ontem, eu zapeava na TV paga e entrou a imagem do grande Eric no Sport TV. Ele apresentava seu documentário sobre os rebeldes do futebol – jogadores que fizeram história não apenas por sua habilidade com a bola, mas porque usaram suas personas para combater o poder, as ditaduras, a guerra. Gostaria que meu colega Luiz Zanin, que gosta de futebol mais do que eu, tivesse visto ‘Football Rebels’. Espero que tenha visto, e sua mulher, Maria do Rosário Caetano, também. Histórias de Latino-América (também) e, no fecho, já que eram todos rebeldes (revolucionários?), uma homenagem ao comandante Che Guevara. Ken Loach meio que servia de fio condutor, e de repente ele falava com clareza do tema do meu post anterior. O mundo atual, que celebra o indivíduo e o isola do coletivo, e o futebol como união em torno de um objetivo comum, o gol. Histórias como a de Didier Drogba, o atleta da Costa do Marfim que pôs fim a décadas de genocídio, usando a paixão do seu povo pela bola para fazer campanmha pelo fim das guerras tribais. O francês, de origem argelina, Rachid Mekhloufi. que, em 1958, um ano mítico, deixou o Saint Étienne e a seleção francesa para fundar o time da Frente de Libertação Nacional, que lutava pela independência da Argélia – mas a Fifa nunca reconheceu o time, que itinerava pelo mundo. A Fifa, justamente – a entidade validou o Estádio Nacional de Santiago, que o general Pìnochet, após o golpe contra Salvador Allende, profanara transformando em campo de prisioneiros, como local da partida que decidiria quem, a URSS ou o Chile, iria para o Mundial de 1974. Os soviéticos queriam outro campo. Não compareceram. Os chilenos entraram sozinhos. Jogaram entre eles, a bola foi chutada para o gol vazio e o juiz validou. O time foi levado perante o general, um jogador, Carlos Caszely, se recusou a apertar a mão do golpista. Pinochet, o regime, vingou-se brutalmente – a mãe do cara foi presa, estuprada, teve os seios queimados com cigarros. Caszely contou isso durante a campanha do ‘No’, que deu origem ao filme de Pablo Larraín. Aparecem as imagens dele com a mãe,ambos dandfo seus depoimento. No +. Na antiga Iugoslávia, em Sarajevo, o ‘herói’ é Predrag Pasic, que transformou sua escolinha de futebol num símbolo de resistência., No Brasil, o documentário destaca o exemplo do dr.Sócrates. Já contei a vocês que estava no Dubai, na junket de ‘Missão Impossível – Protocolo Fantasma’, quando Sócrates morreu. Zapeava na TV paga e via todos aqueles especiais sobre o jogador que virara emblema da primavera corintiana. Não conseguia entender o que diziam, em árabe, mas a quantidade de informação, o tempo, as jogadas – Sócrates era um mito. Juca Kfuri diz que ele não era o melhor jogador do Corínthians. Rivelino, historicamente, foi melhor. Mas Sócrates, na primavera corintiana, deu cara a um Brasil que clamava por diretas-já. Imagino que muita gente fosse buscar os defeitos do documentário de Cantona – ele produz e apresenta, os diretores são Gilles Perez e Gilles Raf. Eu fiquei fascinado, paralisado por suas virtudes – os personagens. E pelo Cantona.A voz de Eric. Javier Bardem não fala mais grave. Cantona, nascido em Marselha, é de ascendência basca. Seus pais combateram a ditadura de Franco. Vem daí, segundo Ken Loach, sua consciência de que é preciso agir contra a injustiça. Cantona fechou o ano em alto estilo para mim.