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Ralph Nelson e seus westerns sanguinários

Luiz Carlos Merten

02 Dezembro 2017 | 20h03

Vão se completar no próximo dia 21 30 anos da morte de Ralph Nelson. Ralph quem? Vindo da TV, ele foi um dos mais ativos diretores de Hollywood nos anos 1960 e 70. Foi escolhido por Alain Delon para dirigir seu longa de estreia nos EUA, que não deu muito certo, A Marca de Um Erro – título premonitório -, mas essa é outra história. Por que estou exumando essa cara que, provavelmente, não interessa a ninguém? Porque estou voltando do jornal, onde fiz os filmes na TV de segunda, 5, e dei o destaque para Duel at Diablo, Duelo em Diablo Canyon. Em 1966, Nelson já dirigira Sidney Poitier em Uma Voz nas Sombras, que valeu ao ator o Oscar de 1963, concorrendo com (e derrotando o) Albert Finney de As Aventuras de Tom Jones, o Richard Harris de This Sporting Life e o Paul Newman de Hud, o Indomado. A década de 1960 foi marcada nos EUA pela luta por direitos e a questão racial esteve muitas vezes presente no cinema de Nelson – nos 70, também – através de filmes como Duelo em Diablo Canyon, O Xerife da Cidade Explosiva e Quando É Preciso Ser Homem. Não só o negro – o índio. Lembro-me de, na época, haver ficado impressionado com Duelo em Diablo Canyon, que foi defenestrado pelos meus colegas da (na época, jovem) crítica de Porto Alegre. Jefferson Barros, José Onofre, o próprio Enéas de Souza, todos rezavam pela cartilha do western tradicional, e me lembro como Jefferson se horrorizou com o duelo final de Joan Crawford e Mercedes McCambridge em Johnny Guitar, a obra-prima de Nicholas Ray. Duelo em Diablo Canyon era ‘excessivamente violento’, mas esse não era o único, nem o maior, dos problemas. Na Itália, o spaghetti western dessacralizava códigos e esse novo foco voltava a Hollywood num efeito bumerangue. James Garner faz um pistoleiro que caça o homem que matou sua mulher índia. A pista o leva a um colono cuja mulher é squaw, ou seja, ela própria viveu entre os índios, e com um guerreiro que agora tenta recuperá-la. Ela não gosta do marido brutal, prefere o índio e para complicar ainda mais o que o que já fugia das normas há esse ex-Capitão Búfalo, um negro emancipado pelo Exército – e interpretado por Poitier – que se junta ao grupo, acirrando ainda mais a tensão racial. Não consigo, de memória, avaliar quão bom é o filme, mas no meu imaginário ele antecipa A Noite da Emboscada, The Stalking Moon, de Robert Mulligan, com Gregory Peck e Eva Marie Saint, e eu não consigo pensar em Diablo Canyon sem visualizar a atriz, a bergmaniana Bibi Andersson. Ralph Nelson fez outro western, Soldier Blue, em 1970, e o filme se chamou, no Brasil, Quando é Preciso Ser Homem. O tema da squaw aparece de novo na personagem de Candice Bergen e ela se une ao soldado Peter Strauss, com quem empreende uma jornada meio sem rumo pelo Velho Oeste, culminando num ataque da Cavalaria aos índios, que ele testemunha. O filme termina com o soldado ‘azul’, de triste, vomitando face a tanta selvageria. Como Nelson admitiu se haver inspirado no massacre de My Lai, na Guerra do Vietnã, fazia todo sentido e era de vomitar mesmo. Sei lá se alguém está lendo isso, mas gosto de fazer essas viagens porque acho que esclarecem, e me esclarecem. Não posso provar que Francis Ford Coppola viu o filme de Ralph Nelson – entrevistei-o duas vezes e não era minha prioridade checar isso -, mas o ataque da ‘Cavalaria’, Robert Duvall com chapéu de caubói, aos vietnamitas em Apocalypse Now tem tudo a ver. Gosto de pensar nessa história do cinema em que os grandes autores canibalizam os pequenos, e não apenas o contrário. Pode ser que delire – quem mais acredita que Glauber bebeu na fonte de Anthony Mann, A Queda do Império Romano, para Terra em Transe? A ‘minha’ história do cinema é feita dessas conexões, das quais não abro mão.