As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Que alegria viver!

Luiz Carlos Merten

31 de outubro de 2013 | 10h06

Quase deletei o post anterior, feito no calor da hora e com algumas observações bem rudes, para não dizer outra coisa, mas resolvi deixar ficar, como registro. A Mostra termina hoje e finalmente vou poder ver o filme de Ettore Scola sobre Federico Fellini. Completam-se exatamente hoje 20 anos da morte do grande Federico e amanhã (ou sábado), preciso checar, o centenário de nascimento de Burt Lancaster. O príncipe Salinas! O Professor! Vou voltar a ambos. Tenho a impressão que o júri internacional, que hoje outorga o Troféu Bandeira Paulista, fará suas escolhas, ou escolha, entre três filmes de ficção. Lições de Harmonia, Childs Poze, que vai se chamar Instinto Materno no Brasil, e La Jaula de Oro, o mexicano, não confundir com o português A Jaula Dourada. Encontrei-me ontem com Denitza Bantcheva, com quem deveria ter feito a mesa sobre René Clément, com Michel Ciment. Denitza é autora de livros sobre Clément e Jean-Pierre Melville e prepara outro lançamento sobre Joseph Losey, de quem a Versátil está lançando Estranho Acidente, que veio se somar a outro lançamento recente do grande Joseph – Galileu Galilei, seu filme sonhado e que, ao ser concretizado, não obteve a repercussão que ele certamente esperava. Denitza é búlgara radicada na França, uma escritora francesa, e eu a achei muito interessante. Uma mulher apaixonada pelo seu objeto de estudo – Clément – e que assistiu à ressurreição de seu mestre no Festival de Cannes, em maio, quando a versão restaurada de O Sol por Testemunha foi aplaudida de pé. Entre os que aplaudiam estava Serge Toubiana, ex-Cahiers du Cinema e presidente da Cinemateca Francesa, a quem Denitza tentava há anos vender o projeto de uma grande retrospectiva dedicada ao diretor e ele dizia sempre ‘não’. Mas teve de fazer, acompanhando o evento em que se transformou a ressortie de Plein Soleil nas salas, a partir de Cannes, e o DVD da Carlota. Denitza não participou do restauro. mas redigiu os textos de um livreto que acompanha o lançamento. Ela me contou divertidas histórias de bastidores – sobre o ódio de François Truffaut por Clément, seus sistemáticos ataques ao mais premiado cineasta da história de Cannes e vê nisso ressentimento, senão má fé. Não é a primeira vez que leio/ouço essas histórias – Truffaut aproximando-se de Aurenche e Bost, usando-os para adentrar nas estruturas do cinema francês, já pensando na futura carreira de cineasta e, depois, transformando a dupla de roteiristas na base descartável do cinema ‘de qualidade’. Seu Clément preferido, o de Denitza, é Que Alegria Viver!, Quelle Joie de Vivre, feito dois anos depois de O Sol por Testemunha, e de novo com Alain Delon. Che Gioia Vivere passa-se na Itália e trata do movimento anarquista, sendo, segundo Denitza, o manifesto anarquista do diretor. Comecei o post com Fellini e termino com ele. Que estranho chamar-se Federico! Pois ele, Federico, disse pessoalmente a Clément que Que Alegria Viver! era a melhor comédia italiana que havia visto na vida. Não é pouca coisa. Confesso que fiquei nos cascos para rever o filme, que vi muito jovem, há 50 anos, embolado com outros ‘Delons’ que me pareceram melhores – Rocco, claro, e O Sol por Testemunha, a origem do mito. A própria Patricia Highsmith considerava Delon o melhor Ripley e a dureza/frieza do ator, sua máscara, inspiraram Jean-Pierre Melville (O Samurai), Losey (Mr. Klein) e outros autores que fizeram de Alain o centro de sua mise-en-scène, em tantas obras-primas do cinema.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.