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Querido Manoel

Luiz Carlos Merten

11 de dezembro de 2013 | 14h10

Manoel de Oliveira está completando hoje 105 anos e eu não vou me repetir no blog. Como não havia espaço no impresso, fiz para o online – para as páginas de Cultura de www.estadao.com.br – um texto comemorativo. Leiam, por favor. Não pelo meu texto (mas, sim, pelo meu texto), leiam pelo próprio Oliveira. Tenho os meus preferidos, entre os seus filmes – Non, O Dia do Desespero, Vale Abraao, Vou para Casa e Um Filme Falado. E me fascina a biografia de Oliveira. O jovem rico, esportista – tem uma foto dele como piloto de automobilismo que me permite supor que o jovem Manoel deve ter feito a fila andar em Portugal. Atlético, viril, com um belo sorriso, tem algo de Cristiano Ronaldo. O jovem esportista interessou-se desde cedo pelo cinema. Foi ator, mas preferiu ser diretor. Desenvolveu uma obra errática, bissexta. Poucos filmes num período muito longo, muitos roteiros que ficaram no papel. Um deles, Angélica, de 1952, virou mais de 50 anos depois O Estranho Caso de Angélica. Se houver um filme português na minha lista de melhores do ano, será o Oliveira, não Tabu, e não porque não goste do filme de Miguel Gomes. A carreira de Oliveira ganha regularidade nos anos 1980. Seu neto, Ricardo Trêpa, me disse numa entrevista que o avô vivia para e pelo cinema. Ele esperou tanto tempo e agora tem muitos (dezenas!) de roteiros que gostaria de filmar. Isso tem lhe dado uma sobrevida. Até quando? Parabens, Manoel. Meu primeiro encontro com ele foi em Veneza, no ano de A Divina Comédia, que ganhou o Leão de Prata. Fui entrevistá-lo no Lido. Começamos a conversar e ele parou tudo. Perguntou se eu não ia gravar nem anotar. Quando lhe disse que não costumava fazer nem um nem outro, perguntou-me como saberia se eu não ia deturpar suas palavras (seus conceitos)? Disse-lhe que teria de confiar e ler a matéria depois. Encontrei-o várias outras vezes. Em Cannes, em São Paulo. E através de depoimentos de amigos e colaboradores – Trêpa, Luis Miguel Cintra, Leonor Silveira, Maria de Medeiros, a própria Catherine Deneuve -, pude ver um outro Manoel, filtrado pelo olhar daqueles que, como eu, o admiram. Lembro-me agora de quando recebeu sua Palma de Ouro especial, de carreira. Gilles Jacob iniciou seu discurso – Cher Manoel. Querido Manoel. Foi um privilégio ter estado no palais, naquele dia.

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