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Quelé do Pajeú, all’ italiana

Luiz Carlos Merten

03 de dezembro de 2020 | 13h01

No livro com a entrevista que me deu para o livro da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, Anselmo Duarte falou muito bem de Quelé do Pajeú. Gostava do filme que fez a partir do roteiro de Lima Barreto, o cineasta, contando a história de Quelemente e de sua vingança contra o homem que estuprou sua irmã. Crimes de honra frazem parte da dramaturgia nordestina – brasileira. Por problema de custo, Anselmo filmou perto da região de Salto, onde vivia, simulando a psaisagem do Nordeste, o que o próprio Lima já havia feito, filmando O Cangaceiro no interior de São Paulo, nos anos 1950. Quelé põe o pé na estrada e Anselmo conceitualizava sua mise-en-scène. Filmou com uma teleobjetiva de 250 mm e a lente zoom para dar essa impressão de que Quelé anda, anda sem sair do lugar, preso a uma estrutura social que o paralisa. Por que estou exumando Quelé do Pajeú? Porque, no outro dia, assistia a The Musketeers na TV Brasil e entrou um horário retrô de cinema nacional, justamente com o filme do Anselmo. O curioso é que um letreiro informava de cara a dificuldade da produção para encontrar cópias razoáveis do filme, permitindo seu restauro. A melhor cópia, que a TV Brasil apresentava, veio da Itália, com legendas em italiano, o que terminou sendo uma experiência inesperada. Tarcísio Meira, Rossana Ghessa, Jece Valadão, todos legendados em italiano. Com o acréscimo da zoom, a sensação era de assistir a um spaghetti western. Elisângela, bem novinha, faz a irmã deflorada. Bastou zapear para viajar no tempo e reencontrar Elisângela como a mãe de Juliana Paes em A Força do Querer. François Truffaut adorava essas coincidências. Elisângela pariu Juliana como a filha de Jece? As datas não coincidem, nem na ficção. Quelé é de 1969, Juliana nasceu dez anos depois.