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Que tal?

Luiz Carlos Merten

01 de novembro de 2013 | 10h15

A pressa é inimiga da perfeição e, depois de acrescentar o post falando mal do novo Ettore Scola, amanheci pensando no filme. Não, Que Estranho Chamar-se Federico não melhorou no meu imaginário, mas pensei uma coisa que pode fazer sentido. Fellini sempre foi um narrador episódico, mas a tendência se tornou dominante em sua carreira, ou método, a partir de A Doce Vida. Não é minha função, seria tarefa, talvez, para Paulo Sacramento, mas sempre achei que a estrutura dramática de A Doce Vida poderia ser mudada, deslocando de lugar os episódios, sem prejuízo do pathos. Seria interessante ver o que outro montador faria com aquele material. Tenho certeza de que sairia outro filme. Oito e Meio representa ápice da tendência – é o melhor Fellini -, mas tenho a impressão de que por autocomplacência ou o quê, ao virar ‘gênero’, Fellini – aclamado e superpremiado pela Academia de Hollywood; o único a ganhar cinco Oscars -, foi perdendo o rigor. Talvez Ettore Scola não esteja gagá, mas tenha projetado em si mesmo essa falta de rigor do Fellini tardio, que criava cenas deslumbrantes, mas elas eram isoladas, três ou quatro por filme, e no caso de A Voz da Lua, creio que nenhuma. Achei, como se fosse uma piada de Scola especial para mim, divertida a cena da saída da sessão inaugural de La Voce della Luna, toda aquela gente discutindo a (aparente) falta de sentido de um Fellini que se repetia e  dava sinais de cansaço. Sempre achei brega, me perdoem, o funeral de Fellini no célebre estúdio 5 de Cinecittà, que era sua casa, exclusivo dele, quando filmava. Não sei se foi uma ideia do próprio Fellini, e se foi ele repetiu Alfred Hitchcock, que fez desaparecer o próprio corpo, numa última piada, em seu funeral. No caso de Fellini, Scola ficcionaliza a extravagância felliniana e Federico, numa última traquinagem, foge do seu enterro, perseguido pelos carabinieri. Metaforicamente, é como se ele estivesse sendo imortalizado. Vejam, estou dando munição para os que gostam do filme. Eu não gostei.

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