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Que mistério é esse?

Luiz Carlos Merten

29 de julho de 2012 | 12h46

Meu amigo Dib Carneiro, que adaptou ‘Estação Carandiru’, de Drauzio Varela, para o teatro e ganhou o Shell de autor com sua peça ‘Salmo 91’, ia ontem com o filho, Heitor, para o Parque da Juventude, assistir à montagem de ‘Romeu e Julieta’. O texto de Shakespeare foi montado por Gabriel Villela com o elenco do grupo Galpão, de Minas, e foi apresentado ontem, na Mostra Sesc de Artes, no parque criado sobre os escombros do presídio em que ocorreu o massacre de presos. Morreram 111 deles. Será mera coincidência? Dib, que ia primeiro almoçar, olhou para um relógio de rua e marcava 1:11 (da tarde). Ele ouvia um CD e a faixa era de número 11. Meu amigo considera-se assombrado pelo número. Diz que volta e meia lhe acontece isso. Pode não significar nada, mas acho a repetição da história curiosa. Tive uma semana intensa, e à parte ocorrências pessoais que é melhor manter quietas, boa parte dessa intensidade passou por emoções estéticas. O ‘Batman’ de Christopher Nolan e e as duas incursões de Gabriel Villela pelo teatro de rua. Dois Shakespeares –  ‘Ricardo 3.º’, em ‘Sua Incelença’, e ‘Romeu e Julieta’. Amo a montagem com os Clowns de Shakespeare e ontem repetiu-se o encantamento com a (re)montagem do Galpão, que Gabriel já havia levado ao Globe, de Londres, 20 anos atrás. Foi lindo e só depois eu soube que, por um triz, não fomos privados daquela beleza, nós o público. A greve dos caminhoneiros prendeu na estrada o caminhão que trazia adereços e figurinos da montagem. Eles chegaram somente no início da tarde, para um espetáculo que iria começar às 4.  Rolou o maior estresse para armar o que o público ia ver – em duas horas! Sem saber disso, eu viajei no espetáculo. Deixei meu lugar, no meio do público, sentado no chão, e fui ver de pé, lá atrás. O desconforto era total. Não havia cadeiras nem arquibancadas, que a administração do parque não permitiu levantar, aviões e helicópteros passavam produzindo grande ruído, uma banda ensaiava ao fundo, à esquerda da perua armada como palco, e havia gente  por todo lado, jogando, gritando. Aquilo me encantou. Eu, que fico louco com as luzes dos celulares, no escuro das sessões de cinema, fiquei matutando – que mistério é esse que prende os olhos e os ouvidos, que leva a gente a experimentar uma vertigem e a se abstrair de tudo para se projetar na magia da fábula? ‘Romeu e Julieta’ terá novas apresentações nos próximos dias. Será possível assistir ao espetáculo – sentado! – no Sesc Belenzinho, acho que na terça-feira. Não se privem. E a trilha, com música brasileira de raiz, é tudo aquilo de bom que o Gabriel me havia dito.

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