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Que horas ele volta? O lulo-petismo em Hebe

Luiz Carlos Merten

22 de agosto de 2019 | 15h43

GRAMADO – Andréa Beltrão não participou do debate sobre Hebe, porque precisou viajar. Tem teatro. O filme de Maurício Farias sobre a estrela do Brasil dividiu a crítica. Dividiu é modo de dizer. Acho que só eu gostei. A maioria detestou o resgate da personagem. A Hebe do filme é uma ilustre desconhecida. Milita contra a censura, em defesa do movimento LGBT. Hebe tem um filho gay, mas o assunto é tabu em casa. O marido, Lélio, é grosseiro, vulgar, machista, homofóbico. Ciúme, o inferno do amor possessivo. Hebe toma porrada dele – você sabia? Só Marcelo, o filho, tem força moral para encarar Lélio e fazê-lo parar. Hebe era malufista. O filho representa o lado ‘Que horas ele volta?’ do filme. Confraterniza com a cozinha. Com uma certa liberdade poética, se a mãe tende à direita, com sua ligação com o malufismo, Marcelo faz a conexão com a esquerda, o lulo-petismo. Pode não ter sido assim na realidade, mas é na ficção. Mãe e filho completando-se, iluminando-se. Hebe contra a censura, construindo a história da TV brasileira. Carolina Kotscho, a roteirista, tomou suas liberdades, tanto Maurício Farias quanto ela. Nada do que Hebe diz ou faz no filme é inventado. Ou melhor, vale o conceito do Berlusconi de Paolo Sorrentino em Loro/Silvio e os Outros. Tudo é documentado, tudo é imaginado. O filme estreia em 26 de setembro, daqui a um mês (pouco mais). Tem uma cena que, para mim, resume tudo. Hebe e Lélio recebem o casal Maluf, Paulo e Sílvia, em casa, para jantar. Hebe conta uma piada. O marido podre rebenta-se de rir. O filho, à mesa, manifesta desconforto. Pede para sair. No dia seguinte, no café da manhã, Hebe, que sabe que pisou na bola, desculpa-se do jeito que era possível. Diz que o ama mais que tudo. Tudo o que o mãe e filho secretam, que nunca é dito, fica subentendido ali. Um toque de mestre – mestra? Maurício, Carol. E Andréa. Ela não se parece com Hebe, mas preenche sua presença na tela. Mesmo assim me dizem que Marcélia Cartaxo será melhor atriz desse festival. Poderá até ser, mas isso não diminuirá Andréa. Cacoete ou problema de visão – as duas coisas -, Hebe toda hora faz um movimento de apertar os olhos, como se estivesse capturando o que quer ver. Andréa parte do detalhe pequeno para construir o macro, dar vida a um mito da vida pública brasileira. Muito interessante.

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