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Que dia!

Luiz Carlos Merten

12 de agosto de 2013 | 18h00

GRAMADO – Tivemos hoje um debate bastante movimentado sobre o filme Tatuagem, de Hilton Lacerda, exibido ontem à noite. O produtor tenta conseguir nova data de exibição porque acha que o filme foi prejudicado. As noites no Palácio do Festival têm sido verdadeiras maratonas. A de ontem começou às 7 da noite e prosseguiu até 1 h da madrugada – seis longas horas, durante as quais foram exibidos dois longas, três curtas, todos com as respectivas apresentações, tudo isso e mais a longuíssima premiação dos curtas gaúchos, que só ela deve ter durado uma hora (ou mais). Hoje pela manhã, cheguei na Sala de Imprensa e já fui fazendo as matérias de amanhã do Caderno 2, correndo contra o tempo porque queria participar dos debates e assistir a dois longas gaúchos à tarde. Terminei perdendo o primeiro, mas vi o segundo, Danúbio, de Henrique Freitas Lima, sobre o gravurista, muralista e pintor Danúbio Gonçalves, integrante do Grupo de Bagé das artes visuais gaúchas. Não é que eu não acreditasse nas possibilidades de Henrique – bem, um pouco, talvez -, mas o filme dele superou toda minha expectativa. É muito bom, um retrato íntimo e delicado e, ao mesmo tempo, uma exposição do método de Danúbio e das influências que o marcaram.Entre elas o muralismo mexicano e o Danúbio, quando jovem, foi um homem muito bonito, um tipo de galã mexicano, com seu bigode, que cortou (ou perdeu) com o tempo. Henrique usa imagens de cinema, de um velho filme do Índio Fernandez, Um Dia de Vida, de 1951,  com fotografia de Gabriel Figueroa e créditos do gravurista Leopoldo Méndez. Columba Domingues e Roberto Cañedo, se me lembro, lideram o elenco. Viajei – o desespero da mulher, quando o marido é morto, naqueles melodramas com fundo da Revolução Mexicana, e a mãe Juanita (Rosaura Revueltas) que vem recolher o cadáver do filho. Tudo aquilo fez parte da minha infância, faz parte do meu imaginário. Sobre Tatuagem e o escândalo anunciado do filme aqui em Gramado – com suas cenas de homoerotismo nos limites do explícito -, gostei médio. Gostei de ver, de debater – e Hilton Lacerda, como Bruno Safadi, de Eden, me parece ter a sustentação teórica para o que quer fazer, e faz. Só que Hilton ficou mais na defensiva, talvez pelo tipo de filme, mas enfim… Tatuagem tem duas cenas que considero geniais. O filme passa-se num cabaré anárquico/literário/musical, onde gays e drags fazem uma revista. Fala-se muito, o tempo todo, em cu. Senti-me liberado para falar a linguagem do filme e disse que, se o Taciano, lá da Paraíba, faz um cinema merda, mas não de merda – que amei lá em Tiradentes -, Tatuagem promete um puta conflito e termina num peidinho. O animador do cabaré se envolve com um soldado do Exército e o ano é 1978, em, plena repressão do regime militar. As grandes cenas – Irandhyr Santos, como o autoritário líder do grupo (mas ele vai se fragilizar pelo amor), conversa com a estrela da companhia, Paulette, cobrando seu envolvimento com um traficante, que ele acha que está prejudicando o grupo, e a outra a cena em que o soldadinho, que não é de chumbo, reage à agressão do colega e expõe que a homofobia do outro é uma fachada para disfarçar seu desejo por ele. É a cena de maior voltagem erótica do filme, muito forte, e o curioso é que fornece uma espécie de contraponto a Flores Raras, que abriu o festival e o filme de Bruno Barreto também aborda o homossexualismo, no caso feminino. Lota Macedo Soares, Glória Pires, é a durona da trama e sua força assusta a frágil poetisa, Elizabeth Bishop, Miranda Otto. Mas, na primeira cena de sexo, a gringa joga a sapa de carteirinha parede, solta o cabelo dela e encoxa e a Glória se abre como flor na tela, antecipando a derrocada – mais tarde – de sua personagem. Em Tatuagem, muito mais escrachado, com seu linguajar chulo e nu frontal – mas não de Irandhyr; interessante essa preservação do ‘astro’ -, o soldadinho também reage à investida do machão, o joga na parede e quando o cara está pronto para virar mulherzinha ele só dá um tapinha na cara e vai embora, tipo ‘Não me interessa!’ Marcelo Caetano, que além de diretor de curtas é assistente de direção, rebateu um pouco o que disse, falou de afeto, disse que o objetivo não é, nunca foi, épater – hã-hã -, mas confesso que se Hilton Lacerda fez o filme que queria, e só ele poderia fazer aquele filme, irritou-me um pouco a pose de grande provocador (ou transgressor). Posso até achar, psicanaliticamente, que é uma defesa, mas lembrei-me da atitude bem distinta de Alain Guiraudie, com seu poderoso L’Inconnu du Lac na seção Un Certain Regard, em Cannes, em maio. É o filme mais radical que já vi, abordando a questão do desejo entre homens, fundado na equação de Georges Bataille – desejo e morte -, e Guiraudie, gay de carteirinha, teve outro discurso. Tudo bem, cada um na sua. Mas eu me pergunto até ponto houve, ou vai haver, um ‘escândalo’ Tatuagem. Não é filme para passar em branco e se escolhe a via do cu para falar de afeto está correndo um risco – já nem falo de mercado. Hilton definiu o filme como um ato político, e se é para ser político tem de agir nas pessoas. Torço pelo filme, apesar das minhas restrições. De incondicional, só meu entusiasmo pelos atores. Irandhyr é grande, como sempre, mas eu gostei foi do Rodrigo, que faz Paulette, e de Jesuíta, que faz o soldado, Fininho(a). Rodrigo é ótimo, mas Jesuíta… Pqp. Tiro o meu chapéu. Meu boné do Inter, que é o que estou usando aqui. A programação continua e agora à noite teremos o documentário de Betse de Paula sobre Sebastião Salgado. A propósito, já viram Vendo ou Alugo? Nem ela me informou sobre a bilheteria do filme no fim de semana. Estou nos cascos, para ver como foi.

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