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Que dia!

Luiz Carlos Merten

28 de junho de 2013 | 18h15

Fui ontem ao Rio, num bate e volta, para visitar o set de Getúlio – Últimos Dias, no Palácio do Catete. Encontrei-me com o diretor João Jardim, o fotógrafo Walter Carvalho, o roteirista George Moura e, claro, Tony Ramos, que faz o papel do ex-presidente e está impressionante. Prometo voltar ao assunto, porque o que vi me deixou nos cascos, louco que toda essa gente talentosa consiga fazer o grande filme que Últimos Dias promete ser. Mas quero acrescentar que passei ontem o maior sufoco no Rio. Tinha um monte de matérias na edição de hoje do Caderno 2, saí do Catete às 4 da tarde e o Caderno fecha às 7. Corri para a sucursal do Estado, na Av. Rio Branco, mas os acessos estavam interditados pela polícia por causa da manifestação. Em desespero de causa, já eram 16h30, entrei esbaforido na estação Cinelândia do metrô, onde tem uma lan house. Comecei a digitar ferozmente, eram cinco matérias com cerca de 3500 caracteres cada. Façam as contas – a capa juntando os zumbis (Juan dos Mortos e Guerra Mundial Z), já havia feito. Só ouvia a barulheira lá fora e, de repente, as menina me informou que eram 18h15 e ela fechava às 18h30. Estava no meio da matéria sobre A Espuma dos Dias, que tive de terminar abruptamente, mas quem leu disse que faz sentido. O problema é que, ao sair, o metrô estava fechado e eu tive de pegar o trem para descer em outra estação e, de lá, correr para o Santos Dumont. Sei que, nesta altura, já passavam das 7 da noite, a situação serenava e eu vivi uma situação insólita. Vim caminhando pela pista da Rio Branco deserta. Uma pessoa aqui, outra ali, algumas bandeiras e o extenso contingente de policiais nas beiradas, já à espera de transporte para voltar aos quarteis. A voz das ruas, o clamor das ruas, preciso refletir mais para não dizer bobagem sobre o que se passa no País. Volto ao conforto do cinema. Em difefentes pacotes, acho – havia três, que abri ao mesmo tempo, misturando os lançamentos -, entre filmes de Fritz Lang, Douglas Sirk e Lewis Gilbert, encontrei dois filmes antigos com Sophia Loren. Um deles é A Mulher do Rio, que Mario Soldati realizou em 1955, e o outro O Condenado de Altona, que Vittorio De Sica adaptou de Jean-Paul Sartre, em 1962, após o Oscar, que recebeu por outro De Sica (Duas Mulheres), no ano anterior. Soldati foi homem de cultura – romancista, poeta. Deu sua contribuição ao neo-realismo, mas sua fama de grande realizador vem das adaptações literárias (Balzac e Alberto Moravia) e não tanto do realismo tardio de La Donna del Fiume, por mais que o roteiro ostente nomes reluzentes (Giorgio Bassani, Pier Paolo Pasolini, Florestano Vancini e Basilio Franchina). Tenho por Soldati um carinho especial porque gosto muito do seu Policarpo, Ufficiale di Scrittura, de 1959, e não me esqueço de que foi ele quem sugeriu a Luchino Visconti o poema de Leopardi que terminou dando o título a Vaghe Stelle dell’ Orsa. Quanto I Sequestratti di Altona, o filme foi recebido a pedradas pela crítica, que o considerou a prova definitiva da decadência de De Sica. O universo de Sartre não era o dele e a visão de uma família de industriais do aço que teve ligações com o nazismo – qualquer ligação com Os Deuses Malditos, de Visconti, não é mera coincidência – foi rotulada de falsificação da realidade e por aí afora. Mas eu ainda guardo lembranças que me dão vontade de rever o filme – Sophia faz uma atriz que participa da encenação, senão me engano, de Arturo Ui, de Brecht, e as cenas da retirada da Rússia, que atormentam o nazi Maximilian Schell, possuem uma tessitura audiovisual (a neve ao som de Shostakovich) realmente primorosa. Ou seja, De Sica podia ter perdido o rumo, mas não o savoir-faire. São dois filmes que quero rever, até por Sophia Loren. Em 1955, na fase pré-Hollywood, ela ainda era uma bersagliera. Mas é verdade que nem toda a sofisticação adquirida matou nela a napolitana. Sophia sempre deu o melhor de si interpretando mulheres do povo.

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