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‘Que bom ser jovem outra vez!’

Luiz Carlos Merten

01 de abril de 2015 | 19h58

John Huston sempre teve uma carreira errática – nos anos 1950, principalmente – e isso com certeza contribuiu para o desprezo que a geração dos Cahiers du Cinéma (Jean-Luc Godard, François Truffaut & Cia.) sempre tiveram por ele. Huston não seria/não era um autor, embora seus filmes expressassem uma visão de mundo (uma preferência temática?). O cinema de Huston sempre celebrou a tentativa mais que o resultado. Seus personagens lançam-se em empreitadas loucas que raramente concretizam, e o que vale para o diretor é o esforço. E Huston dizia que nunca teve consciência de possuir um ‘estilo’. Adaptava seu jeito de narrar às histórias que queria contar. Faço esse preâmbulo enorme porque recebi o DVD de À Sombra do Vulcão, que saiu pela Versátil. O livro de Malcolm Lowry sempre foi considerado infilmável. Grandes diretores (autores) desistiram de adaptá-lo – Luis Buñuel, Jules Dassin, Joseph Losey (que chegou a trabalhar no projeto com Guillermo Cabrera Infante), Ken Russell, Paul Leduc (que encomendou seu roteiro a Gabriel García Márquez!). Mas Huston se apaixonou pelo roteiro de Guy Gallo e Wieland Schultz-Kiel e usou todo seu prestígio para alavancar o projeto que patinava. Em 1984, ele estava chegando ao fim da linha. Sua saúde andava precária, a morte insinuava-se cada vez mais. E, após a grande fase de auto-reinvenção psicanalítica dos anos 1960 – o Huston pós Freud de Além da Alma, A Noite do Iguana, Os Pecados de Todos Nós/Reflections in a Golden Eye, Roy Bean/O Homem da Lei e O Homem Que Queria Ser Rei -, o diretor havia virado, temporariamente, uma espécie de faz-tudo, antes de voltar aos projetos mais pessoais com que encerrou sua obra. Independence, o terror Wise Blood, o filme de esporte Fuga para a Vitória (com Pelé), o musical Annie e o outro terror, Phobia, nenhum desses acrescentou muito à sua glória, embora o primeiro, de meia-hora, feito para celebrar o bicentenário da independência dos EUA, tenha o Benjamin Franklin de Eli Wallach, que diz a frase emblemática e definidora do próprio Huston – “Tenho 68 anos. Que alegria ser jovem de novo!” E foi aí, antes de A Honra do Poderoso Prizzi e Os Mortos, que Huston fez À Sombra do Vulcão. Três adaptações – de Lowry, Richard Condon e James Joyce. Um fecho grandioso para uma obra admirável. Wieland Schultz-Kiel conta no livro de Patrick Brion sobre Huston que, desde que o ator Zachary Scott adquiriu os direitos nos anos 1950, nada menos de 66 roteiros foram escritos, tentando transpor para a tela a saga do cônsul Geoffrey Firmin em Guernavaca, no Dia dos Mortos. No México, é um dia de celebração e festa. O curioso é que, ao longo do processo, surgiu o artigo de Stephen Spender, em 1971, fazendo o paralelo entre o estilo narrativo de Lowry e a montagem cinematográfica, e o livro infilmável virou a obsessão de jovens roteiristas e cineastas, muitos ainda estudantes de cinema, atraídos pela aura ‘underground’ da obra. Dentre os 66 roteiros catalogados e baseados no livro, Schultz-Kiel diz que sete são pastiches de Jack Kerouac, 15 criam um hapyy end impossível, 12 transformam o relato simbólico em tramas de espionagem, por conta do pacto soviético-alemão, e oito, os de autores latino-americanos, ressaltam Hugh como herói revolucionário e lhe dão a primazia sobre Firmin, considerado decadente e burguês em seu pessimismo. De minha parte, vejo sempre em À Sombra do Vulcão uma extensão de outra aventura mexicana de Huston, A Noite do Iguana. Firmin tem tudo a ver com o pastor decaído (e alcoólatra) de Richard Burton na adaptação de Tennessee Williams. Huston não apenas amava o México. Ele vivia no país. Respeitava o povo, sua cultura. Dizia que Firmin foi o personagem mais complexo que filmou e comparava seu alcoolismo à epilepsia daqueles a quem os deuses transformavam em eleitos nas culturas primitivas. Um gigante caído, que busca no álcool um remédio e que transforma os menores gestos em manifestações heroicas. Firmin, quando o encontramos, vaga de smoking e pés descalços pelo cemitério – os pés descalços também eram representações da morte na cultura indiana, como Joseph L. Mankiewicz mostrou através de Ava Gardner em A Condessa Descalça, em meados dos anos 1950. Firmin não se satisfaz com cantos revolucionários como Hugh, falso herói da Guerra Civil espanhola. Firmin sabe quem é, mas tem força e temperamento para se indignar com a morte do índio e enfrentar, no desfecho, o bando de corrompidos que canta Farolito. Para Huston, o cônsul é um outro Capitão Ahab. Na sua versão de Moby Dick, como no livro de Herman Melville, Ahab se bate contra a baleia branca – contra Deus – como um homem que desafia o próprio destino, já traçado e inexorável. Losey pensava filmar À Sombra do Vulcão com Robert Shaw. Huston nunca teve muitas dúvidas de que Albert Finney teria de ser seu cônsul. A Yvonne/Jacqueline Bisset, bela de cortar o fôlego em sua juventude, ele diz na igreja que o inferno é seu habitat natural. Nada fere mais o cônsul que a traição da mulher. Depois disso, viver ou morrer representam a mesma condenação para ele. O que não abre mão é de suas exigências, de sua ética pessoal. Como herói, mesmo caído, Firmin tem atributos divinos, como nas velhas tragédias gregas. E Huston acrescentava uma coisa linda – Deus não morreu. Simplesmente foi-se, e nos deixou com nosso sofrimento e nossa necessidade de tomar partido. À Sombra do Vulcão foi suntuosamente fotografado por Gabriel Figueroa. E Huston, na seleção do elenco, foi tão exigente num item quanto na escolha de Finney, Bisset etc. Para ele, as p… do Farolito tinham de ser p… de verdade. Você vai entender o por quê vendo esse filme que, na época, foi considerado ‘frustrado’, ‘menor’, mas que hoje é objeto de um culto que não cessa de crescer.

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