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Quantos ‘magníficos’?

Luiz Carlos Merten

28 de abril de 2015 | 09h43

Há dias quero fazer um post sobre a anunciada refilmagem de Sete Homens e Um Destino/The Magnificent Seven, de John Sturges, que terá Wagner Moura como um dos pistoleiros recrutados por Denzel, Washington para proteger camponeses dos malfeitores que roubam suas colheitas. O original, com sua mistura de ação e música e cenas ‘clipadas’ – quando vistas hoje; na época nem havia o conceito -, é o verdadeiro início do spaghetti western e até hoje me admira que, em tudo o que li sobre Sergio Leone, os críticos lhe tenham perguntado tanto sobre Akira Kurosawa e nada sobre Sturges, o que, pelo visto, deve ser uma ideia da minha cabeça. Mas, enfim, vou prosseguir o post por linhas tortas, como sempre. Já entrevistei Jerry Bruckheimer umas duas ou três vezes e lhe disse que devia ser do contra, porque não gosto de seus maiores sucessos – a bilionária série Piratas do Caribe. Prefiro os ‘fracassos’, O Príncipe da Pérsia – Areias do Tempo, que não me canso de rever na TV – e no qual Jake Gyllenhaal e Gemma Atherton formam uma bela dupla – e Arthur, o seu épico sobre a origem do mito. Arthur, com Clive Owen, já era um pouco Sete Homens, mostrando como guerreiros iam se agregando ao redor do antigo tribuno romano e, de repente, são legiões de bárbaros enfrentando unidas os inimigos da ‘Britânia’. Conversando com Antoine Fucqua, que dirigiu Arthur, ele contou como Roman Polanski lhe sugeriu que (re)visse Alexandre Nevski, porque Sergei M. Eisenstein seria uma grande inspiração para a batalha do gelo que ele (Fucqua) queria encenar. Reencontrei depois Fucqua na ilha de edição da Sony, em Los Angeles – acho que aquilo era Burbank -, e ele mostrou imagens de O Protetor, que estava fazendo com Denzel Washington. Duas cenas – o diálogo de Denzel com a prostituta russa, na lanchonete, e a invasão do QG da Máfia russa, quando ele provoca aquele banho de sangue na tentativa de recuperar a garota. Antes de prosseguir, faço um intervalo para acrescentar. Antoine Fucqua é um tipão de afro-americano. É alto como Denzel e charmoso como seu ‘astro’. Talvez pudesse ter feito carreira frente às câmeras, mas foi para trás delas e eu achei muito curioso que sua ‘unidade’, na Sony, fosse toda black. Fucqua agregou um monte de gente – jovens e velhos – para trabalhar com ele, e todos os que vi eram negros, demonstrando verdadeira adoração por ele. Não creio que Fucqua seja um ‘teórico’, mas acho muito interessante a maneira como ele utiliza a montagem em cenas chaves de seus filmes. Sete Homens tem a grande cena da batalha, quando Chris/Yul Brynner e seus pistoleiros, no final, enfrentam o bando selvagem de Eli Wallach. Espero viver para conferir o novo Sete Homens, porque algo me diz que Fucqua irá diretamente à fonte, reencenando a batalha sob a chuva de Os Sete Samurais, de Kurosawa, que Sturges transpôs para o Velho Oeste e virou os ‘sete magníficos’. E, a todas essas, além de Wagner Moura, em seu retorno a Hollywood, teremos Denzel e Ethan Hawke – a dupla de Dia de Treinamento, outro filme de Fucqua – e Chris Pratt, em torno de quem ouço um rumor de que poderá ser o novo Indiana Jones. Misturando mais um pouco as coisas, no filme de Sturges, o líder dos camponeses é Jorge Martinez de Hoyos, e ou eu me engano ou é com ele que Chris tem um diálogo muito poético, quando diz que o campônio é a terra e o pistoleiro, o vento que sopra sobre ela, dessa maneira colocando em palavras sua trágica impossibilidade de criar raízes, a mesma que faz com que Shane/Alan Ladd parta no desfecho de Os Brutos também Amam, o clássico de George Stevens, enquanto Joey/Brandon de Wilde chama seu nome (e uma sombra passa pelo rosto do menino). Anos mais tarde, Martinez de Hoyos voltou a encarnar um camponês em Hollywood, e foi no Che, de Richard Fleischer. O projeto reunia um monte de gente de ‘esquerda’ de Hollywood, gente que tinha estado na lista negra do macarthismo. O estúdio assustou-se com o que eles estavam fazendo e tomou conta do material. Fleischer revelou como quis abandonar o navio, mas achou que seria indigno com atores e técnicos e permaneceu no set até o fim, mesmo sabendo que Che não seria o filme que aquele grupo havia sonhado. Lembro-me do escândalo que produziu a cena em que Martinez de Hoyos entrega o Che ao Exército, dizendo que a movimentação dos guerrilheiros nas montanhas assustou suas sabras e elas pararam de produzir leite. A chamada esquerda caiu matando e o curioso é que o mesmo argumento, retomado no Che de Steven Soderbergh, foi perfeitamente deglutido. Aliás, Soderbergh deve ter retomado todo o roteiro do original de 68, mas pouca gente notou isso. O que sei é que havia no discurso de Jorge Martinez de Hoyos em Che uma tristeza e uma desolação que, no fundo, me diziam muito sobre toda a situação. Como Chris e Hoyos, Che e Hoyos eram, como a terra e o vento, inconciliáveis, daí o fracasso da utopia revolucionária.

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