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Quantos anos esta noite?

Luiz Carlos Merten

12 de setembro de 2012 | 09h19

Sessenta e sete (67). Mais um ano, ou menos um ano, como gostava de dizer (e pensar) Mário Peixoto. É curioso que me tenha vindo à mente o nome do criador de ‘Limite’. Os anos passam, eu envelheço e ‘Limite’ não se transforma, para mim, no filme mítico que é para os outros. Nunca consegui entrar no alegado fascínio ou mistério daquelas imagens e, quando leio tentativas de interpretação do filme, tenho sempre a sensação de que a linearidade em que o enquadram, como como numa camisa de força, essas críticas – muitas exageses – somente logram a banalização. Meus pais morreram cedo, ele, muito cedo, quando tinha 8 ou 9 anos. Cresci com a romântica fantasia de que morreria cedo, mas já estou nos 67 e, como sou o caçula de quatro irmãos, os restantes, todos vivos, já superaram a marca dos 70. Estou chegando longe, portanto. Já contei que, certa vez, estava no 1.º ano primário, o que seria hoje a 1.ª série do 1.º grau. Tinha aulas pela manhã, mas dormi à tarde. Acordei com a casa vazia, silenciosa, e a sensação de que era de manhã. A escola era pública, o Grupo Escolar Gal. Daltro Filho. Usávamos uniforme (guarda-pó). Vesti o meu e subi correndo a Rua Mariland, sem me dar conta de que o sol se punha ante meus olhos. Cheguei na escola já fechada, claro. Essa sensação, e já lá vão 60 anos, volta e meia tem voltado. É uma das lembranças mais vívidas que guardo. Por que eu corria? Para aprender? E por que a sensação me volta, tão intensa? Por que preciso reaprender?  Ah, Freud… Não tenho dado muitas notícias. Fui ver segunda-feira pela manhã o longa do ator Paulo Figueiredo, ‘E a Vida Continua’, que dá sequência à série de cinema espírita que nos assola, já há algum tempo. Todos os filmes brasileiros têm tubulado na bilheteria, sem exceção ou com a exceção de ‘E aí, Comeu?’, com Bruno Mazzeo. Gostei dos dois que estrearam na sexta passada, ‘Cara ou Coroa’, de Ugo Giorgetti, e ‘Totalmente Inocentes’, de Rodrigo Bittencourt, mas, pelo visto, o público não está comigo – e a paródia de favela movie, o segundo, possui um encanto que deveria atrair a plateia. ‘E a Vida Continua’ talvez venha a ser a salvação da lavoura. Depois de vê-lo, prometi a mim mesmo nada dizer nem escrever, para não ser ofensivo, mas não consigo resguardar meu voto de silêncio. O começo é brega – aquela representação da gente rica -, o diálogo é didático e expositivo, mas tem ali alguma coisa e esse plus a mais, como diria Daniel Filho, é Amanda Costa. Ela não é só boa, é muito boa. Mas depois da morte, quando Amanda acorda no nosso lar, com todo respeito pelo espírito de André Luiz, instala-se o horror. Nada como o kitsch de ‘Nosso Lar’, mas aquelas repartições post-mortem e o tom das falas de Lima Duarte, muito compenetrado no seu papel de… Guardião? Selecionador de almas? Queria morrer. Algo vai mal quando um filme como ‘E a Vida Continua’ vira a expectativa de faturamento do cinema brasileiro. Tomei café da manhã ontem com Rodrigo Fante, da Imagem, e o diretor Marcelo Machado, para fazer a entrevista sobre ‘Tropicália’, que é a capa de hoje do ‘Caderno 2’. Gostei do filme, que contextualiza o movimento cultural e político – comportamental – que agitou o Brasil por um breve momento, entre 1967 e 69 e cujos ecos se prolongam até hoje. ‘Tropicália’ é mais que um documentário musical. Também vai para o brejo ou conseguirá atrair bom público, tendo um lançamento expressivo (50 cópías) para um documentário? Conversando com Rodrigo, repassamos as decepções nacionais na Imagem neste ano – ‘Dois Coelhos’ e ‘Billi Pig’, mais ainda o segundo. Mas a débâcle nacional não atinge a empresa que, pela primeira vez, celebra dez milhões de espectadores em apenas oito meses. Em outros anos, a Imagem fez o número, mas foi preciso fechar dezembro. Em 2012, o sucesso veio bem mais cedo, e com filmes como ‘Os Mercenários 2’, que está batendo 2 milhões – em menos de 15 dias em cartaz – e se trata de uma aventura divertida. Misturo as coisas, deve ser o efeito aniversário. Mas nesta miscelânea que virou o post, não quero deixar de assinalar – recebi o novo pacote da Cult, com pelo menos dois DVDs que me interessaram bastante. Um é ‘La Truite’, Uma Estranha Mulher, o penúltimo filme de Joseph Losey, de 1982, com Isabelle Huppert e Jeanne Moreau, cuja reputação não é muito boa, devo admitir, mas que Antônio Gonçaves Filho viu e amou. O outro, eu amo, a menos que a memória esteja me traindo. O outro é ‘Os Crimes de Oscar Wilde’, The Man with the Green Carnation, O Homem com o Cravo Verde, de Ken Hughes, com Peter Finch no papel do escritor e a genial Yvonne Mitchell, de ‘Uma Sombra em Sua Vida’, The Woman in a Dressing Gown, de J. Lee Thompson, e ‘Safira, a Mulher sem Alma’, de Basil Dearden. Ken Hughes não é um diretor por quem os críticos tenham muito apreço. Bem, eu tenho. Gosto de ‘Joe Macbeth’, seu filme de gângsteres shakespeariano, de ‘Servidão Humana’, com Kim Novak na pele de ‘Mildred’, e me lembro que, na época, me diverti com a fantasia de ‘Chitty Chitty Bang Bang’, O Calhambeque Mágico. Talvez o retrato de Wilde seja simpático demais, mas é preciso lembrar que ‘Os Crimes’ é de 1960 e precedeu, de poucos anos, ‘Victim’, Meu Passado Me Condena, de Basil Dearden, com Dirk Bogarde, que mudou as leis de repressão ao homossexualismo na Inglaterra. ‘Os Crimes’ de alguma forma preparou o caminho, com a reconstituição do massacre moral do escritor e sua família, e o fato de Peter Finch ter feito o papel com certeza preparou-o para ser masis tarde o gay de ‘Domingo Maldito’, de John Schlesinger. Tenho (quase) certeza de que Ken Adam foi o diretor de arte do filme, e isso explica a acurada recriação do período. Taí um filme que tenho vontade de rever.

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