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Quantas voltas fazem um Frammartino?

Luiz Carlos Merten

04 Março 2015 | 09h38

E lá fui eu induzido a pensar errado, de novo. No fim de semana, fui ao cinema, sábado e domingo. As salas que exibiam filmes do Oscar estavam lotadas. Perguntei à bilheteria como ia Superpai. Ela me mostrou a cartela para a próxima semana. Faltando menos de meia-hora – estava indo (re)ver o Clint -, nenhum ingresso fora adquirido para a última sessão da noite. Tinha espaço para falar do filme de Pedro Amorim no impresso, na terça-feira, mas não queria repetir o texto da estreia no online. Cobrei da assessoria os números do fim de semana. Fui sendo cozinhado em fogo brando. É sempre mau sinal quando escondem a bilheteria. Escrevi um texto simpático a Superpai, mas crente de que fora mal. Ontem, meu editor, Ubiratan Brasil, me mostrou o Almanaquito, de Maria do Rosário Caetano. Superpai foi muito bem, com mais de 170 mil espectadores. História da Eternidade não chegou a 2 mil no fim de semana e o documentário sobre a Vai-Vai, campeã do carnaval de São Paulo, não teve 100 – cem! – míseros espectadores pagantes. A Vai-Vai pode levantar o público na avenida, mas não lota cinema. Se pelo menos a bateria tivesse ido já teria sido um blockbuster, face ao que foi. Não gostei muito de História da Eternidade. Havia prometido a mim mesmo nada falar sobre o filme de Camilo Cavalcanti. Incomodou-me, e vão me acusar de preconceito, o número Secos & Molhados de Irandhyr Santos e mais do que incomodar me desconcertou aquele incesto, desejo de avó pelo neto. E olhem que o começo é deslumbrante. Aquela árvore, o cego sanfoneiro, o rebanho de cabras, o enterro, tudo me projetou num tempo que ultrapassa os limites do real para virar mítico. Um sertão interiorizado, da memória. Pensei comigo, quando vi. Aleluia! Temos o nosso Michelangelo Frammartino, aquele universo duro e poético de Quatro Voltas.  Pena que a ficção, depois, menos no episódio do desejo do sanfoneiro pela viúva, me tenha decepcionado. Curioso, fui ver o que meus colegas escreveram sobre o filme. Posso não gostar de História da Eternidade, mas o filme não é medíocre. As críticas que li são, e muito. Ficam falando do tempo, da beleza, da trilha de Zbigniev Preisner, numa tentativa de comer pelas bordas sem chegar ao ponto, talvez porque os que elogiam não saibam porque o estão fazendo. Não conseguiram articular um discurso coerente, um conceito. Divagam, tentando ser bonzinhos. Rogério Sganzerla detestava crítica ruim, não importa que fosse elogiosa. Admito minha perturbação diante de História da Eternidade. Os temas mexem comigo. O incesto, o tempo, vida e morte. Gosto do personagem de Cláudio Jaborandy e do seu estranhamento diante de Irandhyr, que o tira dos eixos. Gosto da menina, Alfonsina, que sonha com o mar, mas não gosto da forma como as tramas se articulam (e solucionam). Já contei como em dezembro, em Buenos Aires, nas comemorações dos 50 anos da Misa Criolla de Ariel Ramirez, houve um espetáculo na Biblioteca Nacional. No telão, pude rever – já a tinha visto, ao vivo e em cores – La Negra Mercedes Sosa cantar Alfonsina y el Mar com acompanhamento ao piano do próprio Ariel. A garota não pode se chamar Alfonsina por mera coincidência. Tenho tentado rever o filme de Camilo Cavalcanti, sem conseguir. Uma questão de horário. Mas ainda revejo. Aquele começo é tão belo.