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Quantas almas?

Luiz Carlos Merten

27 Julho 2012 | 22h35

De volta! Passei os últimos dias numa corrida louca, mas isso não é novidade. Não consegui postar nada sobre a emocionante estreia de ‘Sua Incelença Ricardo 3.º’, com os Clowns de Shakespeare, no Sesc Belenzinho, mas convido a todos para vermos amanhã, às 3 da tarde, no Parque da Juventude, sobre os escombros do Carandiru, a ‘Romeu e Julieta’, outra montagem de Gabriel Villela, na verdade, uma remontagem, com o elenco do Grupo Galpão. Conheci Gabriel através de Dib Carneiro Neto, de quem ele montou ‘Salmo 91’, justamente sobre o massacre do Carandiru, e a tragédia lírica de Shakespeare, recriada naquele espaço, de alguma forma fecha um ciclo, mas eu espero que esse ‘fim’ seja um (re)começo para novas parcerias do Gabriel com meu amigo, assim como ele voltará ao Galpão, dentro de alguns meses, para reinventar Pirandello, ‘O Gigante da Montanha’. Mudando de assunto, há dias corro atrás de Ricardo Duarte, filho de Anselmo, para repercutir com ele uma informação que veio da coluna de Mônica Bérgamo, na ‘Folha’. Há uma disputa entre o produtor Anibal Massaini e Ricardo, como representante da família, em torno aos direitos de exibição dos filmes de Anselmo num ciclo no MIS, Museu da Imagem e do Som. Segundo entendi, Anibal está engrossando o caldo porque Ricardo, atendendo a um desejo de Anselmo, fez a doação da Palma de Ouro, que ele conquistou por ‘O Pagador de Promessas’, ao memorial ou fundação que leva o nome do diretor em Salto, onde vivia. Anibal sustenta que o troféu também pertencia ao pai dele, que produziu o filme. Pode até ser, mas eu defendo a legislação francesa de autor e, segundo ela, o autor do filme é o diretor. E, depois, mesmo não sendo a mesma coisa, Anibal chiou e buscou apoio da imprensa quando a Xuxa impediu o lançamento de ‘Amor, Estranho Amor’, de Walter Hugo Khouri, em DVD. A alegação dela era de que o contrato, anterior ao DVD, não previa a reprodução da obra em outros suportes, mas, na verdade, queria impedir a circulação/exploração da sua cena de nu, que realmente entrava em choque com a imagem de rainha dos baixinhos. Ah, direitos… O mais impressionante é que, enquanto os ‘herdeiros’ disputam entre si, pelo visto os únicos interessados no assunto são eles. A exibição de ‘O Pagador de Promessas’ no MIS teve míseros quatro espectadores e a de ‘Vereda da Salvação’ foi ainda pior. O filme que o próprio Anselmo considerava o melhor e mais elaborado de sua carreira atraiu somente um espectador – e era eu, que assisti ao filme sozinho, naquela sala inteirinha para mim. Confesso que aquilo mexeu comigo. No livro da Coleção Aplauso, do qual fui o escriba, Anselmo destila um ressentimento profundo contra Ely Azeredo, dizendo que o crítico brasileiro integrava o júri de Berlim e foi ele quem impediu que ‘Vereda’ ganhasse o Urso de Ouro. Anselmo me jurava que havia conhecido outro jurado e ele lhe contou a campanha de Azeredo pelo ‘Alphaville’, de Jean-Luc Godard, que, afinal, venceu o prêmio.  Não duvido nem um pouco que, se a história for verdadeira, Azeredo tenha agido por razões de consciência, por sinceramente preferir o filme de Godard, mas a verdade é que um Urso de Ouro, após a Palma, teria feito uma diferença e tanto na carreira de Anselmo Duarte e no próprio cinema brasileiro da época. E o que achei do ‘Vereda’? Há muita coisa impressionante no filme, a começar pela fotografia em preto e branco de Ricardo Aronovich, que já havia fotografado ‘Os Fuzis’, de Ruy Guerra. A textura da imagem deslumbra.