As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quando ele foi rei, Ali!

Luiz Carlos Merten

04 de junho de 2016 | 09h55

Estava jantando ontem, depois do teatro, quando me ligaram do jornal pedindo um texto sobre Muhammad Ali, o grande. Sua morte estava sendo noticiada, embora ainda não comentada. Escrevi e fui dormir, sonhando com todos aqueles filmes de boxe. Acordei e vi que, sim, ele morreu. Tocou-me, porque é o que acho, o que escreveu Aguinaldo Silva. Muhammad Ali foi o último Deus do boxe. Depois dele vieram uns caras velozes e furiosos, mas sem nenhuma arte, e foi o fim do esporte. Ao escrever sobre ele, o que me veio, em primeiro lugar, foi Milan Kundera. A insustentável leveza. Cassius Marcellus Clay era um homem bonito, mas havia nele, e era o mais marcante, uma graça de bailarino quando ele se movimentava no ringue. E, nos transformadores anos 1960 – a década que mudou tudo -, ele foi um homem de seu tempo. Além de campeão de pesos-pesados, foi campeão de direitos civis e humanos. Chegou a perder o tÍtulo que conquistara por se negar a lutar no Vietnã. “Nenhum vietcongue me chamou de crioulo. Por que vou guerrear contra eles?” Em plena ditadura cívico-militar no Brasil, com o pau comendo por aqui, acompanhávamos à distância a explosão da ‘América’ – barricadas de negros, afrodescendentes, nas ruas, de estudantes nos campi das universidades. Detroit ardeu e o fogo nunca mais se apagou. Dividido entre Martin Luther King, a via pacífica, e Malcolm X, a radical, Cassius Clay optou pela segunda. Converteu-se ao islamismo e virou Muhammad Ali. Em 1974, participou na África, no antigo Zaire, da Rumble in the Jungle. Enfrentou George Foreman pelo título mundial. A luta ocorreu no quadro de um grande festival de música. BB King, James Brown, Spike Lee e Norman Mailer integravam o entourage de Ali. Ele representava o pan-africanismo, Foreman era, em contrapartida, o negro alienado. Leon Gast filmou 250 horas de material (250!), que foram reduzidas para sucintos 89 minutos. Todo esse processo durou 22 longos anos, mas em 1996 When We Were Kings, Quando Éramos Reis, ganhou o Academy Award. Muhammad Ali, com o diretor, foi receber o prêmio. Já estava debilitado pelo Mal de Parkinson. Amparou-o, para subir ao palco, o antigo rival, Foreman. Foi, e ainda é, no meu imaginário, um dos momentos inesquecíveis do Oscar. Alguns anos depois, Michael Mann fez Ali, que, para mim, é uma obra-prima. Will Smith foi indicado para o Oscar. Não levou. O filme cobre aqueles dez anos, entre 1964, quando Clay venceu Sonny Liston e ganhou o título, e 1974, a luta no Zaire. Mann, que também era rei, usou tecnologia digital. Com a câmera na mão, segue Ali/Smith, que corre, como parte de seu treinamento. E ele corre, corre, corre. Para a imortalidade e a glória. Comentando sua morte, George Foreman disse algo lindo, e espero que sincero – “Se você tivesse 16 anos e quisesse copiar alguém, teria de ser Ali.” Em 1999, foi eleito nos EUA o desportista do século – o Pelé do pugilismo. Quando Éramos Reis e Ali são grandes filmes de boxe, não sobre boxe. Rocco e Seus Irmãos, o clássico de Luchino Visconti, o filme de minha vida, não deixa de ser de boxe. E existem os filmes que a maioria da crítica considera os melhores – Punhos de Campeão, The Set-Up, de Robert Wise, e Touro Indomável, Raging Bull, de Martin Scorsese. Gosto mais do segundo, para mim, o melhor Scorsese, mas se tivesse de escolher um filme pelo boxe seria A Grande Esperança Branca, de Martin Ritt. James Earl Jones e Jane Alexander vivem aquela relação tórrida que é uma ofensa para a América wasp. A grande esperança branca é derrubar o crioulo que está comendo a branquela. Deus!, que Jones e Jane são belos, intensos. Ambos foram indicados para o Oscar em 1970, mas perderam para George C. Scott (Patton) e Glenda Jackson (Mulheres Apaixonadas). Dane-se o Oscar. The Great White Hope é um puta filme. Os melhores de Ritt são sempre sobre e contra o racismo – Hombre, A Grande Esperança Branca, Sounder/Lágrimas de Esperança. Tiro meu chapéu para Muhammad Ali e viajo com ele nas minhas lembranças de boxe no cinema.