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Pura magia

Luiz Carlos Merten

18 de março de 2013 | 09h32

Andava meio aborrecido com o teatro, com as coisas que tenho visto e não me satisfazem. Mas ontem se produziu um milagre. Meu amigo Dib Carneiro é jurado do prêmio Coca-Cola e ontem ele tinha de ver um infantojuvenil, Lampião e Lancelote. Fui com ele – afinal, Luciana Carnieli faz Maria Bonita e eu sou devoto dela, desde que roubou a cena como Madame Clessi em Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, revista (a peça) por meu amigo Gabriel Villela. Embora tenha coisas lindas, e seja um grande Nelson, não é um grande Gabriel, que fez coisas melhores. Mas havia outro motivo que me atraía para Lampião e Lancelote. O casamento entre cordel e a literatura europeia clássica foi celebrado no cinema por A Vingança dos Doze, de Marcos Faria, com sua trama adaptada dos 12 Pares de França, fotografia muito chique de José Medeiros e cenografia delirante, como sempre, de Luiz Carlos Ripper, ao qual se seguiu Faustão, o Falstaff de Eduardo Coutinho, de novo com o aporte da dobradinha Medeiros/Ripper. Não tenho condições de reavaliar esses filmes na lembrança, de dizer se eram bons, mas algo me ficou – o Faustão de Eliezer Gomes, um ator mítico, o Tião Medonho de Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, em cujo lombo cavalgou Jeanne Moreau em Joana Francesa, de Cacá Diegues, e a estonteante beleza de Rejane Medeiros na Vingança. Por mais pré-disposto que estivesse para gostar (e não era o caso, ressabiado como andava), tomei um choque. Amei. Vibrei, me emocionei, cantei – é um musical com trilha de Zeca Baleiro – e, no final, quando o palco e parte da plateia caíram no forró, queria forrozear também. A luz, os objetos e figurinos (de Márcio Vinicius), os músicos – tudo e todos brilham. A trama começa em Avalon, na corte do rei Arthur, onde a feiticeira Morgana, rejeitada por Lancelote, vinga-se projetando-o no tempo e no espaço e ele vai parar na caatinga, de cara com Virgulino e seu bando. O choque é inevitável, mas, apesar do título, a montagem de Débora Dubois (concepção e direção) e a dramaturgia de Bráulio Tavares privilegiam as mulheres, Morgana e Maria Bonita. Como no caso de A Recusa, em que o garoto que teve a ideia é eclipsado (sorry) por seu colega de elenco, Vanessa Prieto, que faz Morgana e é, até onde sei, o motor do projeto, lutando para viabilizá-lo, não tem voz nem presença cênica para sustentar a comparação com Luciana, Daniel Infantini, Cássio Scapin e o próprio Leonardo Maggiorini, que faz Lancelote, mas, justiça seja feita, ela faz uma linda dupla com ele, e a fala dos dois, quando se reencontram e Lancelote expõe a expectativa do homem pela mulher (e vice-versa) já vale, antecipadamente, o prêmio de dramaturgia infantojovenil do ano para Bráulio. Como muitos textos para crianças e jovens, o de Lampião e Lancelote é sucinto e deixa a gente – me deixou – com vontade de mais. Mais ação, mais romance, mais forró. Lampião e Lancelote começou sem palavras, no livro de Fernando Vilela. Como diz a diretora na apresentação, tudo queria saltar do livro. As belas e fortes imagens clamavam por palavras. Também na apresentação, Fernando Vilela diz que a história do mítico encontro de Lampião e Lancelote começou a nascer na cabeça dele como um filme. Prosseguiu como coisa de cinema para Bráulio e Zeca (Baleiro), que tem seu momento de Ennio Morricone quando os dois guerreiros se olham, se medem em câmera lenta, como num spaghetti western de Sergio Leone. Muita coisa no universo de Lampião e Lancelote é esquemática, conceitual. Eu, pelo menos, me senti solicitado a construir tudo aquilo que me era apenas sugerido. Participei ativamente de tudo, de um jeito como gostaria de ter participado em tantas montagens mais badaladas. E gente, Luciana Carnieli é boa demais, ela canta demais. Está no Sesi, com sessões de graça e outras em que se paga pouquinho. Corram pra fila!

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