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PT Anderson nas brumas de Manderley

Luiz Carlos Merten

25 de fevereiro de 2018 | 10h21

Fui ver ontem Trama Fantasma e, sorry, ainda não foi dessa vez que reatei com Paul Thomas Anderson. Mas daria o Oscar de melhor ator para Daniel Day-Lewis, até porque não sou um entusiasta pelo Churchill de Gary Oldman, que deve ganhar. Prefiro o de Brian Cox, no outro filme, que não foi indicado. Mas faria uma cláusula para o Daniel – só leva se prometer que será mesmo o último papel. Puta cara chato, o personagem como o ator, com uma intensidade que bate nos nervos e não é de hoje que me irrita, não sei exatamente por quê. Gosto dele pontualmente – em Lincoln, Nine, mas via de regra fico sempre em dúvida se é o ator, o método, ou são os personagens que me derrubam. Confesso que vou dizer uma coisa estranha. Vou misturar vida pública e privada, mas que raio de homem dispensa a mulher por telefone, como Day-Lewis fez com Isabelle Adjani? Em frente… Comprei ontem a Sight and Sound que está nas bancas, february, com Phantom Thread na capa. Comecei a ler a entrevista, mas parei, não sem antes ser contemplado com as informações de que PT, o diretor, sempre quis fazer um thriller gótico e que o projeto desse filme começou a nascer quando ele ficou doente e a mulher, zelosamente, cuidou dele, sem arredar pé da cabeceira. Ao ler, achei curioso, sem entender. Vendo o filme, fez todo o sentido. Day-Lewis faz um estilista, o preferido do jet-set e da realeza britânica dos anos 1950 – é o primeiro filme do diretor e roteirista fora dos EUA. Como um Barba-Azul, ele coleciona mulheres, que inspiram suas coleções. Todas têm prazo de validade na sua vida. Quando o filme começa, a irmã pergunta se já não está na hora de a (mulher) da vez ser dispensada. Discute com praticidade – ‘Damos o vestido tal, e a mandamos andar.’ Ah, sim, deve ter faltado uma irmã para fazer a Isabelle andar. Entra a personagem de Vicky Krieps, e dessa vez ele terá uma oponente à altura. Na primeira vez que saem juntos, ela adverte – ‘O que quer que queira fazer, faça com gentileza.’ Não é o forte do nosso homem. Thriller gótico lembra Rebecca, a Mulher Inesquecível e, para não deixar margem a dúvida, Day-Lewis chama-se Woodcock – parecido com (Alfred) Hitchcock, não? -, a nova musa é Alma, como Alma Reville, a fiel companheira do mestre do suspense, e a irmã, Cyrill, é a perfeita governanta da Woodocock House (Manderley?), como no clássico de 1940. O filme é chique no último, mas certamente exigia mais paciência do que eu tive ontem. A governanta, a casa, tudo me levou a Julieta, de Pedro Almodóvar, que também é thriller, gótico, mas solar, portanto, prefiro. Mais do que sobre um artista obsessivo/possessivo, Trama Fantasma é sobre dar e receber numa relação. Hetero, no caso. Homem e mulher. Ele a vampiriza, ela vai descobrir seu ponto fraco para vampirizá-lo, por seu turno. Não falta a cena da escada. Alma no topo, Woodstock, perdão, Woodcock em situação de inferioridade, ele sobe, ela desce, Woodcock arruma um detalhe do vestido e a recoloca no seu devido lugar, no piso inferior. Ai, cansaço. Só que Alma é resiliente, como se diz. Mesmo com risco de spoiler, acontece uma coisa que faz com que ela precise cuidar de Woodcock, como a mulher cuidou de PT (Anderson). Ele fica fraco, ela o fortalece, fica fraco de novo, fortalece de novo, e assim constrói-se o casamento. A culpa é de quem? Da mãe! Pois tanto quanto gótico é um thriller psicanalítico, como tantos de Hitchcock. Chiquérrimo, insisto – as cenas do vestido de noiva são brilhantes -, mas me deu a impressão de ser um filme sobre tudo que é finalmente sobre nada. Tem a que deveria ser a melhor coadjuvante no Oscar, Lesley Manville, como a irmã, mas não leva. Allison Janney vai ganhar, por Eu, Tonya, filme do qual gosto mais, admito, mas Allison, por melhor que seja, não deveria bater Lesley. Academia de m… Só como curiosidade, fiquei pensando como andará o casamento de PT, depois que a mulher viu aonde foi parar sua dedicação. Porque o filme não é sobre compaixão nem amor. É sobre poder, e como tal define o estado do mundo, e o mundo que PT Anderson retrata decididamente não faz minha cabeça.

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